Ladies ‘made in’ Manguinhos

Meninas da comunidade formam grupo de rap que está mudando os hábitos na favela

Por thiago.antunes

Rio - Elas causam por onde passam. Paradas em frente à Biblioteca-Parque de Manguinhos, as ‘Ladies Gang’ já estão acostumadas com o sucesso na comunidade onde cresceram. Com raps fortes e atitude, sabem que atraem. E intimidam.

“Queremos ser uma marca, uma tendência, um estilo de vida”, enumera Patrícia Nogueira, de 20 anos, a Bandit. Alta e morena, tem 15 tatuagens pelo corpo. “Sério? Não vi todas essas não”, diz Cássia Thamyris, de 18 anos, a Kim Glimberg, com cachos volumosos e rosados. “Nem todas estão acessíveis a todos”, dispara Bandit.

Elas se conheceram há quase dois anos em bailes charmes. “Era uma loucura, um monte de meninas que dançavam”, diz Kim. Após alguns meses, muitas foram desistindo e as cinco que ficaram formaram as Ladies. “Um DJ disse para cantarmos também. Deu certo!”

Dona Lanôr (blusa amarela e boné)%2C Bandity%2C Pretinha (blusa laranja)%2C Kim Glimberg (cabelo vermelho)%3A paixão pela atitudeFernando Souza / Agência O Dia

O sucesso está vindo, após um ano e meio, mas nada foi fácil. As meninas têm atitude, falam firme, sabem o que querem e como querem. “Faz favor de colocar aí que estamos procurando apoio para nosso primeiro clipe. Precisamos de R$ 11 mil”, diz Ana Paula Lanôr, de 18 anos, a Dona Lanôr, mulata com cabelos trançados, que já fez todos os cálculos da produção.

“É, R$ 11 mil resolveriam nossas vidas”, reflete Stephanie Gonçalves, também de 18, a Tetiz, mulata de cabelos pretos que mais observa do que fala. Todas pensam um instante antes de seguir nos planos. “Vamos gravar uma mixtape e lançar em julho”, diz Tetiz. “Vai ter axé, reggae, hip-hop, rap”, diz Bandit.

Contra o preconceito

Mas nem tudo são flores na vida das, crias da favela: integrar um grupo feminino, que defende em suas letras a auto-aceitação das mulheres negras e dos cabelos naturais, é lutar contra o preconceito. “Hoje, as meninas querem se vestir como a gente, assumem o cabelo black, não pensam mais em ficar com qualquer um”, fala Dona Lanôr. “Elas precisam entender que a vida não é só garoto e filho. Lutamos pela independência e respeito”, complementa Kim.

Cabelo black e atitude contra as ‘periguetes’ de fora

A afirmação das ‘Ladies’ nos bailes gerou, de imediato, a valorização das meninas locais. “Agora os meninos valorizam as pretinhas das favelas deles. Antes só queriam as branquinhas ou as com os cabelos alisados”, diz Tetiz, ressaltando que o caminho para a aceitação não é fácil.

As referências musicais variam. Dona Lanôr, por exemplo, gosta de algumas evangélicas e tem a base cristã — começou cantando na igreja da mãe. Mas elas ressaltam que gostam de vários estilos — desde que sejam músicas boas. “Cazuza, Elis Regina, Cássia Eller, Maria Rita, Céu, Jorge Vercilo” diz Dona. E Ladies, claro.

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