Lambe-lambes entram na era digital e aposentam os ‘caixotes’

Fotógrafos das antigas usam agora o equipamento somente para chamar a atenção dos clientes

Por ramon.tadeu

Rio - Os lambe-lambes se renderam à modernidade. Os poucos profissionais que ainda trabalham nas praças da Baixada Fluminense trocaram o tradicional equipamento fotográfico pelas digitais. Alguns ainda exibem as máquinas-caixote — geralmente revestidas com couro cru, madeira ou metal — para chamar a atenção dos clientes. As fotografias convencionais, no entanto, quase não são mais tiradas.

O fotógrafo Altair Inácio trabalha há quadro décadas na Praça João Padre Musch e vai se aposentar no fim do anoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Em Nova Iguaçu, apenas na Praça Chopin, no Centro, o equipamento ainda é usado. De acordo com as irmãs Vauleide, 42, e Rosângela Rodrigues, 48, que trabalham juntas há 30 anos, dos 20 clientes que atendem por dia, pelo menos cinco ainda pedem para serem fotografados com a máquina-caixote.

Elas acreditam que esses clientes ainda preferem o lambe-lambe por causa da tradição e do charme de ser fotografado pela máquina antiga numa praça. “A procura foi caindo nos últimos anos, pois a maioria prefere as fotos digitais impressas em cinco minutos. Com a outra, demora em torno de 15”, conta Vauleide. O preço é o mesmo, em torno de R$ 6 a R$ 10, dependendo da quantidade.

Já o fotógrafo Altair Inácio, 63, que trabalha há quadro décadas na Praça João Padre Musch, também no Centro de Nova Iguaçu, deixou de usar a máquina há cinco anos. “Tive que me adaptar à modernidade. Lembro que as três principais praças de Nova Iguaçu viviam lotadas de fotógrafos e hoje estou solitário”, conta, com lágrimas nos olhos, Altair, que tira em média 30 fotos por dia.

Segundo ele, nas três praças na Avenida Marechal Floriano Peixoto — Liberdade, Chopin e Padre João Musch — havia pelo menos 20 lambe-lambes há 10 anos. Hoje, nos três locais, apenas quatro profissionais ainda sobrevivem do ramo. Dois deles aposentaram de vez sua máquina e usa apenas as digitais.

Altair, que aprendeu a técnica com seu pai, será o próximo a abandonar a carreira. Ele deve se aposentar no fim do ano por problemas de saúde. “Por respirar aquela química do revelador e fixador dentro tive problemas respiratórios. É uma pena, mas uma hora teria que encerrar a carreira”, disse, conformado.

Para que a tradição da família continue, Altair ensinou a arte ao sobrinho Walter Inácio, 52, que ficará em seu lugar na praça. “Vou passar o bastão e lembrar da profissão com amor”, conta.

Fã dos lambes-lambes, o autônomo Alcy Maihoni, 51, manleva o filho Gabriel Gomes, 8, para tirar fotos na praça. “Meu pai fazia isso comigo. A foto na praça tem charme”, lembra.

Modernização em Meriti e Queimados

Em 1969, Osvaldo de Andrade Neves, 70 anos, chegava à Praça da Matriz, em São João de Meriti, com uma caixa preta, fixador, revelador e filme. Era um dos primeiros lambe-lambes a trabalhar no local e, desde então, retratou boa parte da população meritiense. No fim dos anos 90, comprou uma Polaroid e há dois anos usa uma digital para registrar casais e fazer fotos 3x4.

Osvaldo de Andrade%2C de 70 anos%2C trabalha na Praça da Matriz%2C em São João de Meriti%2C desde 1969Estefan Radovicz / Agência O Dia

No Centro de Queimados, na Praça Nossa Senhora da Conceição, o lambe-lambe Adilson Jesus, 58, trabalha no local desde 1977, mas há alguns meses sem a antiga máquina. “Ela está guardada como relíquia no porão de casa. Hoje uso digital e um computador com impressora na praça. O serviço fica mais rápido”, conta.

De acordo com o editor-executivo de Fotografia do DIA, Paulo Marcos, 56, ainda há adeptos a este tipo de serviço por um único motivo: “Não procuram o lambe-lambe para terem resultado fotográfico, mas sim para reviver aquela lembrança de quando eram jovens e fotografados nas praças, ao lado de vendedores de algodão-doce”, recorda.

Para o repórter fotográfico Alessandro Costa, de 38 anos, 18 deles no DIA, o lambe-lambe deveria ser considerado patrimônio histórico. “Na época, eram eles que fotografavam casais e famílias nas praças. Tem papel importante na fotografia”, afirma Alessandro, que foi fotógrafo do ‘Caderno Baixada’ de 1999 a 2006.

Profissionais lambiam as fotos para avaliar fixação

Os fotógrafos ambulantes surgiram nas primeiras décadas do século 20, trabalhando em praças e parques. Eram quase sempre procurados para registrar momentos especiais das famílias e casais ou para tirar retratos 3x4. A máquina também servia de mostruário, com as laterais cobertas de fotos.

Para a origem do termo lambe-lambe existem diferentes explicações’. Uma delas é que, para garantir a qualidade da revelação, eles lambiam as fotos para avaliar a fixação da imagem feita em um tempo mínimo de lavagem. Os clientes que viam aquela cena não entendiam e daí deram o apelido.

No Rio, o trabalho dos lambe-lambes passou a ser considerado Patrimônio Cultural Carioca em 18 de agosto de 2005, no segundo mandato do então prefeito César Maia. Na época, ele tomou a decisão por considerá-los raros em tempos de modernidade.


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