Novo lixão no bairro Babi, em Belford Roxo, vira caso de polícia

Sócio do Centro de Tratamento Resíduos Bob Ambiental acusa o prefeito de jogar lixo em terreno particular. Dauttmam nega

Por ramon.tadeu

Rio - A coleta de lixo em Belford Roxo virou caso de polícia. Moisés Boechat, sócio do Centro de Tratamento de Resíduos (CTR) Bob Ambiental, acusa o prefeito Dennis Dauttmam (PC do B) e o novo secretário de Serviços Públicos, João Magalhães, de jogar os resíduos da cidade em um dos seus terrenos, na região do Babi, no Recantus. Segundo ele, homens armados invadiram a área, dia 9, e diversos caminhões despejaram os dejetos. Policiais do 39º BP (Belford Roxo) foram até o local . “Foi a Polícia Militar quem os tirou do meu terreno”, denuncia. Segundo ele, desde então, nada mais foi jogado.

Caminhões jogaram resíduos em Área de Proteção Ambiental Estefan Radovicz / Agência O Dia

A briga entre o empresário e o governo municipal vai além. Boechat afirma que a prefeitura deve R$ 3,2 milhões, referentes a dívidas de 2012 e dos primeiros quatro meses de 2014 — motivo pelo qual estava impedida de jogar o lixo no CTR. Já Dauttmam exige do empresário R$ 1,1 milhão de royalties de exploração do solo e afirma nunca ter deixado de usar o CTR.

Inea multa prefeitura

Como o terreno está dentro da Área de Proteção Ambiental Alto Iguaçu, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) multou o governo municipal e exigiu a retirada do lixo, que, segundo o órgão, foi jogado pela prefeitura. O valor da multa vai ser definido amanhã, numa reunião do Conselho de Diretores. Por nota, a prefeitura afirmou que exigirá do empresário a retirada do material, por ser uma área particular.

A crise do lixo na ‘Cidade do Amor’ começou após denúncias do DIA sobre problemas na coleta domingo passado. Percorrendo a cidade, a reportagem contou 33 pontos de acúmulo de dejetos. Em muitos deles, moradores atearam fogo, tentando diminuir o transtorno. A medida, porém, é perigosa à saúde pública, segundo o pesquisador da Fiocruz, Dalton Marcondes. Ele diz que a fumaça derivada da queima de plástico é cancerígena e que permitir o acúmulo de lixo é “irresponsabilidade”.

Após a denúncia, prefeito Dennis Dauttmam demitiu o secretário de Serviços Públicos Sergio Lins e todos os servidores com cargos comissionados e função gratificada da pasta. No lugar, assumiu interinamente o de Administração, João Magalhães.

Prefeito diz que dívida é menor

Ao saber da acusação do empresário Moisés Boechat de que ordenara que homens armados invadissem seu terreno para despejar lixo, o prefeito reagiu: “Ele é maluco! Eu estava em Brasília.”

Para o prefeito, o empresário quer receber a dívida e está criando factoides. “Quem me garante que não foi ele (Boechat) quem mandou jogar o entulho lá para nos acusar?”, questiona Dennis Dauttmam, que afirma reconhecer apenas R$ 1,6 milhão de dívida, referente a 2014.

Segundo ele, o resto da dívida com a Bob Ambiental (R$ 1,5 milhão) deixada pelo prefeito anterior, Alcides Rolim (PT), não pode ser paga, porque não foi atestada a execução do serviço. “Quando a gente assume, só pode pagar os serviços executados e atestados pela gestão que sai. Não houve isso”, diz. Quanto à multa e à notificação do Inea à prefeitura, Dauttmam diz: “O órgão vai ter que provar que fomos nós que jogamos o lixo lá”.

Coleta de lixo nas mãos de João Magalhães

João%3A missão de limpar a cidadeDivulgação

O lixo de Belford Roxo agora tem novo ‘dono’. O prefeito Dennis Dauttmam escolheu o atual secretário de Administração, João Magalhães, para resolver o problema. Joãozinho, como é conhecido, vai comandar também a pasta de Serviços Públicos, cargo que já ocupou como secretário especial durante o governo Jorge Júlio da Costa dos Santos, o Joca, entre 1993 e 1995, quando o prefeito foi assassinado. Dois anos depois, no governo de Maria Lúcia, viúva de Joca, foi secretário-geral, acumulando a responsabilidade pelo recolhimento do lixo. Em 2005, Magalhães voltou à prefeitura no segundo governo de Maria Lúcia e, novamente, comandou a limpeza urbana.

“Ele é a pessoa com a experiência que o problema exige”, garantiu o prefeito Dennis Dauttmam, para quem, em uma semana no cargo, já foi possível verificar diferença nas ruas. “Ainda estão sujas, mas há menos dejetos espalhados”, garante.

Adversários políticos de Joãozinho confirmam que ele pode mesmo resolver o problema. “Lixo na rua não vai ter. Além de conhecer a área, ele é autoritário e todos os servidores têm medo do João Magalhães”, diz um deles, que não quis se identificar .

Procurado para falar sobre o desafio de assumir a pasta, João Magalhães preferiu não se manifestar.

Família garante ganha-pão coletando lixo clandestino 

Alheia à disputa e ao crime ambiental pelo despejo irregular, a catadora Sandra Maria Leandro, 54 anos, aproveitou para recolher material reciclável. “O que as pessoas veem aqui como um amontoado de lixo, vejo como ganha-pão”, ensina Sandra, que estava acompanhada da filha, nora e de sete netinhos. Beneficiária do Bolsa Família, ela tira menos de R$ 1 pelo quilo do material reciclável.

Para as cerca de 332 toneladas de lixo que Belford Roxo produz por mês, a CTR Bob Ambiental recebe uma média R$ 553,5 mil. E pelo aluguel de caminhões, motos, retroescavadeiras e caçambas de lixo, a prefeitura paga em torno de R$ 1,5 milhão. Diz Dennis Dauttmam que já foi mais: R$ 2,2 milhões.

Morador do Jardim Redentor, o barbeiro Roberto de Sá, 28, espera que, agora, com a mudança de secretário, o lixo seja recolhido. “Não dá mais para ver tanto lixo na cidade. As moscas invadem as casas. Tomara que ele dê jeito na situação,. que está insustentável”, espera o morador, que disse já ter ficado três meses sem o lixo recolhido.

Sandra Leandro e a família aproveitaram a criação do novo lixão%2C no Recantus%2C para catar material reciclávelEstefan Radovicz / Agência O Dia



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