Mostra revela dialeto de comunidades de pescadores-artesãos que vivem em Paraty

Instalação “Palavra Caiçara”, na Casa de Cultura de Paraty, convida o visitante para um passeio pela cultura desse povo

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Quem nunca viu um “biguidi”, sentiu um “terralão” ou já saudou uma “árvore da manhã”? Quase todo mundo. A primeira palavra significa beija-flor; a segunda, representa o vento frio que sopra da cachoeira e a terceira nada mais é do que os primeiros raios da manhã. As expressões, bem desconhecidas da maioria das pessoas, vêm do pitoresco vocabulário das comunidades litorâneas de Paraty. Enquanto a cidade se prepara para a badalada Feira Internacional Literária (Flip), uma exposição traz os significados e curiosidades de um dialeto singular, quase extinto, que faz parte do dia-a-dia dos caiçaras.

A instalação “Palavra Caiçara”, na Casa de Cultura de Paraty, convida o visitante para um passeio pela cultura desse povo. São 120 palavras e expressões documentadas pelo professor Cláudio de Aquino junto à comunidade de Ponta Grossa. O glossário tem a intenção de preservar e reavivar este linguajar típico e símbolo da identidade desse povo.

As seis comunidades caiçaras de Paraty vivem hábitos simples e preservam seus costumes e tradiçõesGabriel de Paiva

A pesquisa e documentação das palavras foram iniciadas na década de 1980, quando Cláudio lecionava na comunidade de Ponta Negra e passou a anotar as expressões. Ao retornar este ano para levar o ensino fundamental a moradores das seis comunidades caiçaras de áreas de difícil acesso na região costeira, ele percebeu que o dialeto corria risco de desaparecer entre as novas gerações. “Depois de notar que as crianças e jovens já não usam nem entendem muitas daquelas palavras e expressões, iniciei um trabalho de recuperação dessa linguagem, caminhando junto com o trabalho pedagógico”, contou Claudio.

Descendentes do encontro entre portugueses e índios, os caiçaras são um povo que preferiu viver fora dos centros urbanos, junto ao mar, onde poderiam usufruir apenas dos recursos naturais necessários. Em Paraty, a abertura da rodovia BR-101 levou para a cidade o turismo e a especulação imobiliária. Com isso, os caiçaras tiveram de sair de suas tradicionais vilas em belas praias e migrar para novas terras. Alguns escolheram construir novas vilas caiçaras, em locais da costa ou em ilhas como Columbê, Praia Grande e Araújo.

Como costumes dos caiçaras mais tradicionais, estão os meios de transporte pela canoa indígena, feita de um único tronco; a fonte de renda vinda apenas da pesca e do artesanato; as casas de pau a pique com teto de sapê e chão de barro e o uso somente de plantas para fins medicinais.

Público pode contribuir com o acervo

?“Palavra Caiçara” traz palavras e expressões curiosas, como ‘aguatá’, que significa sem fazer nada, ‘craquinchenta’, que significa pedra áspera ou pessoa que tem ferida na perna, e ‘inpaiatempo’, que significa alguém que está demorando. E o acervo ainda pode crescer. “As pessoas ficam encantadas. Palavras e expressões novas são aprendidas e outras também são relembradas. Além dessas novidades, os visitantes podem contribuir com palavras ainda não catalogadas. É uma troca de conhecimento e de história incrível”, disse o professor.

Para a superintendente da Casa da Cultura de Paraty, Gabriela Gibrail, a ideia é reativar e preservar uma parte da cultura de Paraty. “Juntos podemos manter vivo esse dialeto tão rico e de grande significado cultural para a preservação da nossa identidade, inclusive como garantia para as gerações futuras”, diz.

Com curadoria das artistas plásticas Patrícia Gibrail e Renata Rosa, a concepção da exposição prioriza os sentidos e envolve o visitante em uma atmosfera linguística e sonora. O ambiente é tomado por letras, expressões e significados com efeitos 3D. A mostra ficará montada até o dia 17 de agosto, de terça a domingo, das 10h às 22h. A entrada é franca.

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