Rio - ‘Tem dia que a gente não tem o que comer”. O que poderia ser o desabafo de um retirante do sertão nordestino pode ser ouvido bem de perto, em Campos dos Goytacazes, a 274 quilômetros do Rio de Janeiro. Caio Maximiliano, de 62 anos, não tem mais como sobreviver da pesca e é obrigado a fazer bico na construção civil e na feira para sustentar a mulher e os quatro filhos.
A cidade do Norte Fluminense é uma das que mais sofrem com a pior estiagem registrada nos últimos 84 anos, que faz minguar a cada dia o Paraíba do Sul. Alvo da disputa entre os governos do Rio de Janeiro e São Paulo, o rio que abastece 15 milhões de pessoas está morrendo.
Além do risco de secar as torneiras de 10 milhões de consumidores em 13 cidades fluminenses, a redução do nível do Paraíba já atinge várias atividades produtivas — principalmente a pesca, a pecuária e agricultura — e afeta diretamente uma legião de trabalhadores, principalmente no Norte e no Noroeste do estado.
Somente em Campos, os prejuízos já somam R$ 75 milhões, além dos 2,5 mil empregos diretos perdidos. O secretário de Agricultura do município, Eduardo Crespo, diz que o nível do rio já chega a 4,5 metros (quando o normal seria 5,20m nesta época do ano) e pode baixar mais um metro se não chover até janeiro. “Uma catástrofe”, diz.
Em São João da Barra, onde deságua o Paraíba, a produção de leite, que era de 30 mil litros por mês, caiu pela metade. Segundo o coordenador de Defesa Civil do município, Adriano Assis, a situação é ainda mais complicada. Além de comprometer a pesca, o Paraíba não tem mais força para desembocar no mar. Com isso, a água salgada invade o rio, levando água salobra para as torneiras. Por conta disso, a Cedae teve que interromper o abastecimento na cidade por diversas vezes. Para amenizar o problema, a concessionária está reativando um antigo poço artesiano e um reservatório do local.
Em Quissamã, 30% da população de 20 mil habitantes estão sendo afetadas diretamente pela falta d’água, além do sofrimento diário dos produtores rurais. Já na cidade de Paraíba do Sul, no Centro-Sul Fluminense, que chegou a emitir um alerta para o risco de desabastecimento, estima-se um prejuízo de 30% na produção agropecuária.
O problema atinge também pequenos riachos e o Rio Muriaé, principal afluente do Paraíba. Em Cardoso Moreira, banhada pelo Muriaé, a pecuária leiteira sofre severamente com a seca. O secretário de Agricultura da cidade, Helvécio de Azevedo, informou que cerca de 20 animais estão sendo enterrados toda semana por falta de alimento.
Prejuízos são maiores em Campos
O município de Campos já deixou de vender 250 mil arrobas de boi e 500 mil toneladas de cana-de-açúcar desde o início da estiagem, em janeiro. Na cidade, já é possível andar pelo leito do rio e chegar à metade dele.
Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, o pecuarista José do Amaral, 64, estima em 20% os prejuízos na pecuária leiteira e de corte. “Não tem mais pasto para os animais comerem, por isso estamos perdendo dinheiro. Quem pode, importa ração, só que o processo de produção fica mais caro e o preço final não compensa. Ainda há uma quantidade de cana que estamos dando de alimento para os animais, para que não morram”.
O médio produtor agrícola Eduardo Ribeiro Mendonça, 39, estima que seus prejuízos já chegam a R$ 150 mil. “Nossa produção de cana e mandioca rendia sempre uma ótima colheita. Agora a gente só está colhendo 20%. Com a falta de chuva, nem crescer vai mais”. Presidente da Associação de Pescadores do Rio Paraíba do Sul, Jorge Carvalho, 52, diz que nunca viu situação igual em quatro décadas. “Eram 124 pescadores antes da seca. Agora são 84. Outros 40 foram fazer outras coisas”, diz ele.
Minimizando o problema
Apesar das perspectivas catastróficas apontadas pelos municípios no levantamento do DIA, órgãos federais e estaduais ignoram o problema. Enquanto a Secretaria de Estado do Ambiente reconhece ser esta a pior seca em 84 anos, a pasta de Agricultura afirma que a “estiagem não causou perdas além das já esperadas para este período”. Procurados, os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário e a Agência Nacional de Águas (ANA) não se manifestaram.
“Os produtores rurais já se preparam para conviver com essa adversidade. Em agosto as chuvas superaram a média histórica do período, amenizando os efeitos da seca”, disse o secretário Alberto Mofati, que aposta na previsão de chuvas no final de setembro e outubro para regularizar o ciclo de produção. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou que está monitorando o rio.
Na contramão do discurso da falta de chuva, a Sociedade Nacional de Agricultura (SNA) critica a falta de ações públicas efetivas para evitar o problema. “Vemos governadores brigando por falta d’água, gerentes do setor elétrico pedindo que chova, mas ninguém tentando prevenir que mais problemas voltem a acontecer e a situação piore mais ainda”, diz Alberto Figueiredo, diretor da SNA. Segundo ele, é necessário investir em preservação das nascentes, córregos e riachos, promovendo o reflorestamento das matas ciliares (vegetações que protegem os cursos d’água do assoreamento).