CSN tinha braço da ditadura

Abertura de arquivos da companhia em Volta Redonda revela que até cidadãos eram perseguidos

Por nicolas.satriano

Rio - Trezentos e sessenta e um trabalhadores foram demitidos durante as décadas de 1960, 1970 e 1980 da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, por serem considerados subversivos por governos militares. A informação é dos pesquisadores que estão há apenas duas semanas mergulhados nos arquivos da empresa. “Também há indícios de perseguição a jovens que atuavam junto à Igreja Católica e informações de que a CSN vigiava cidadãos comuns de Volta Redonda, não apenas seus funcionários”, informa Edgard Bedê, professor, pesquisador da Comissão da Verdade Dom Waldyr Calheiros e coordenador da equipe que está vasculhando os documentos da CSN.

Os arquivos estão guardados desde o período anterior à privatização da CSN, que ocorreu em 1993. O objetivo da pesquisa é obter o máximo de informações sobre funcionários e registros da Assessoria de Segurança e Informação (ASI), que funcionava na empresa, como um braço da Presidência da República no período militar.

Arquivos da empresa antes da privatização foram abertos em marçoBanco de imagens

“A história de Volta Redonda se confunde com a história da CSN”, diz o procurador da República Júlio José Araújo, que vem acompanhando o trabalho dos 37 pesquisadores. Ele conta que desde o ano passado algumas reuniões já estavam acontecendo. “Fizemos algumas visitas técnicas que constataram que havia fichas de trabalhadores perseguidos pelo AI-5 (Ato Institucional número 5)”.

No dia 12 de fevereiro desse ano finalmente o acordo foi firmado na sede do Ministério Público Federal (MPF) em Volta Redonda. “Esse acordo representa um avanço na questão do direito à verdade e à memória porque vai permitir reconstruir a história da empresa e parte da história de Volta Redonda.” A CSN concordou em franquear o acesso aos arquivos da empresa relacionados ao período anterior à privatização.

A coordenação do trabalho está a cargo do Edgard Bedê, cuja expectativa é que o trabalho dure pelo menos mais um ano. Ele diz que o trabalho da equipe é voluntário e que deve durar pelo menos mais um ano. “Já estamos no arquivo central, que é o principal, onde estão os documentos mais importantes. São 25 mil caixas com todo tipo de documentação e cerca de 30 mil fotos”. 

Em busca da memória dos trabalhadores

Para o presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio, Wadih Damous, é bom lembrar que Volta Redonda teve importância primordial durante a ditadura militar.

“A CSN se valia das chamadas listas negras e as submetia a análises para perseguir os trabalhadores. Estes, por sua vez, eram muito atuantes. O sindicato dos metalúrgicos também era muito forte. É a memória desses trabalhadores que queremos recuperar”, afirmou.

Nesta primeira fase do trabalho, os pesquisadores das Comissões da Verdade do Rio e de Volta Redonda se direcionaram às 25 mil caixas do Arquivo Central da CSN, que abrangem o período de 1940 até os dias atuais. De acordo com eles, a documentação está conservada e guardada em boas condições.

Na segunda fase, os pesquisadores se debruçarão sobre os arquivos de Recursos Humanos e os do Escritório Central e, por fim, os da Fábrica de Estruturas Metálicas (FEM), localizados na Fábrica de Oxigênio (FOX), subsidiária da CSN, também em Volta Redonda. Esse trabalho é importante para localizar os arquivos da Assessoria de Segurança e Informação.

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