Daniel Guanaes Divulgação
Não podemos ignorar. A solidão aumenta o risco de morte prematura, com efeitos comparáveis aos do tabagismo diário. São quase 900 mil mortes associadas a essa epidemia global, segundo a própria OMS. Apesar disso, vemos apenas propostas genéricas, como "fale com alguém", "desconecte-se do celular", "faça atividades em grupo". O caminho precisa ser mais profundo e menos óbvio. Não é apenas o excesso de telas que nos isola, mas a ausência de experiências concretas de pertencimento. Falta-nos, atualmente, o compromisso de conviver com o outro mesmo quando não nos é conveniente. A convivência exige mais do que afinidade: exige entrega.
Pense, por exemplo, nos espaços de transição. Aqueles lugares simples onde a vida pulsa sem agenda: a padaria da esquina, onde o padeiro já sabe como você gosta do café; o banco da praça, onde um aceno pode virar conversa; a horta comunitária, onde mãos diferentes dividem a mesma terra; o templo do bairro, onde até o silêncio se torna encontro. Quando esses ambientes são bem cuidados, viram pontos de contato genuíno. Ali, estranhos se tornam conhecidos e uma conversa despretensiosa pode promover mais sensação de bem estar do que horas em uma rede social.
Outro caminho seria aproximar quem hoje vive em tempos diferentes. Os adolescentes, com fones nos ouvidos, e os idosos, que sentem falta de alguém para ouvir suas histórias. Parece haver um abismo entre eles, mas não precisa ser assim. Imagine uma escola que adote um asilo - alunos ouvindo relatos de quem viveu sem Google, e idosos aprendendo a mexer no celular com quem nasceu digital. Essas trocas intergeracionais curam a solidão dos dois lados, além de devolver à comunidade algo precioso: a sensação de continuidade e pertença.
O trabalho também precisa ser repensado. A flexibilidade do home office trouxe ganhos, mas, para muita gente, esvaziou o senso de pertencimento. Algumas empresas buscam alternativas simples, como encontros presenciais pontuais ou rodas de conversa breves durante o expediente, para fortalecer os laços entre colegas. Não se trata de transformar o trabalho em um espaço terapêutico, mas de reconhecer que um ambiente mais humano também favorece a produtividade e o engajamento.
Na esfera pública, o desafio é resgatar o calor humano das estruturas cívicas. Assembleias de bairro poderiam ser mais do que espaços de pauta: poderiam ser encontros onde se partilha o que preocupa e o que comove.
Políticas públicas serão decisivas. A OMS sugere ações coordenadas em cinco frentes: pesquisa, intervenção, medição, engajamento e formulação de políticas. Mas nenhuma comissão, por mais qualificada que seja, será capaz de substituir o gesto simples de alguém que oferece presença. Em última instância, a superação da solidão não se faz com protocolos, mas com vínculos.
O que estamos esperando para reaprendermos a estar juntos?



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