Fracisco Cortes FernandesDivulgação

Você já pensou que a crise da Previdência poderia ter um impacto menor sobre o erário público se a saúde do trabalhador não fosse negligenciada? Já imaginou que, antes de chegar ao pedido de aposentadoria ou de auxílio-doença, milhares de brasileiros sofrem por anos com adoecimento precoce e recorrente?
Essas questões têm sido ignoradas historicamente. Pouco se fala sobre isso, dando-se ênfase apenas ao problema – o déficit previdenciário –, sem buscar soluções para suas causas, o que ajudaria a minimizar danos individuais que resultam em uma alta fatura para todos.
Somente em junho de 2025, mais de 330 mil brasileiros maiores de 18 anos solicitaram ao governo afastamento de suas atividades profissionais. Desse total, 76% dos benefícios concedidos pelo INSS foram motivados por doenças, um número que se repete mês após mês, com pequenas variações, compondo um ciclo silencioso de alto impacto econômico e social.
Lesões por esforço repetitivo, dores lombares e doenças crônicas recorrentes ocupam o topo do ranking dos motivos de afastamento. Junto a elas, aparecem os transtornos mentais e comportamentais que, segundo pesquisas recentes, entre 2006 e 2021, levaram mais de 3,2 milhões de brasileiros a pedirem para se afastar do trabalho, número que disparou após 2019, sendo mais um reflexo da pandemia de Covid-19.
Contra essa distorção, a medicina do trabalho, frequentemente lembrada apenas nas fases de admissão e demissão de funcionários, é uma importante aliada para preservar a saúde do brasileiro e do Brasil. Por sua capacitação e preparo, o Médico do Trabalho pode liderar dentro das empresas o esforço rumo à prevenção de agravos e transtornos que afetam a saúde do trabalhador.
Com o devido apoio, cabe a ele trazer para dentro das empresas (públicas e privadas) um olhar amplo e resolutivo sobre prevenção e combate a cenários de risco que faz a diferença entre um colaborador saudável e um que, com o tempo, engrossará as estatísticas da Previdência.
Assim, a presença efetiva do Médico do Trabalho dentro das organizações significa uma salvaguarda contra o adoecimento (físico e mental), estimulando práticas saudáveis e prevenindo e combatendo aquelas que induzem ao agravamento de quadros: ações claras e embasadas que ajudam a entender a real condição do trabalhador.
Para que o país reduza os quase 300 mil afastamentos mensais devido a doenças será preciso ir além da reforma previdenciária. É preciso apostar na saúde ocupacional, não por um impositivo legal, mas como estratégia e investimento. A prevenção custa menos, funciona melhor e, acima de tudo, respeita quem move a economia: o trabalhador.
Esse é um desafio estrutural que exige ações em diferentes frentes, não se pode ignorar a relevância da medicina do trabalho nesse processo de reconhecimento de que saúde e desempenho caminham juntos.
Sem dúvida, esse será o primeiro passo para trazer transformações profundas às relações entre empregados e empregadores e reduzir significativamente o impacto do adoecimento nas instituições públicas e privadas.
Francisco Cortes Fernandes é presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT)