Victor CorrêaDivulgação

Você se afasta dez dias do trabalho para tratar uma depressão. Na volta, percebe que já não é visto da mesma forma. A competência é a mesma, e você sabe disso. Mas o olhar dos outros mudou. Projetos deixam de chegar, sua voz pesa menos, e alguém sempre parece duvidar da sua estabilidade. É o retrato da psicofobia — o preconceito contra quem cuidou da mente, como se isso fosse um carimbo de fraqueza.

Agora imagine a mesma cena com outro desfecho: em vez de depressão, você quebrou o braço. Mesmo tempo afastado, tipoia no ombro, com direito a foto no Instagram, retorno ao trabalho. Ninguém questiona sua capacidade de decidir, pensar, liderar. A fratura é visível, incontestável. Já a depressão não deixa cicatriz aparente — e é justamente essa invisibilidade que abre espaço para a desconfiança. A sociedade ainda tem dificuldade de legitimar o que não sente ou não vê.

Nos últimos anos, cresceu o número de licenças por burnout — exaustão física e emocional causada por excesso de trabalho e pressão contínua. Ao contrário de uma fratura exposta, esse adoecimento não deixa marcas. E aí mora o problema: colegas se entreolham, chefes cochicham, como se a culpa fosse de quem adoeceu. Há sempre uma suspeita no ar, como se pedir ajuda fosse prova de fraqueza.

Pesquisas da USP mostram como esse estigma opera nas organizações. Quem atravessa uma crise psíquica, mesmo após tratamento, segue sob desconfiança. O que se questiona não é o que a pessoa entrega, mas a lembrança de uma suposta instabilidade.

E quando falamos de ansiedade, o quadro é devastador: 55,8% dos brasileiros nunca procuraram um especialista para lidar com ela, em levantamento recente do Instituto Cactus com a AtlasIntel. O estigma pesa: muita gente evita marcar consulta por medo da piada, do rótulo ou do descrédito.

Hoje, quase quatro em cada dez benefícios do INSS têm ligação com saúde mental. Em outras palavras: o sofrimento está em toda parte, mas o cuidado só chega quando a situação já transbordou. Em 2024, foram concedidas 472 mil licenças médicas por transtornos mentais no país; 68% a mais do que no ano anterior.

Na cidade do Rio, a fila oficial fala por si: de acordo com dados públicos do SISREG-Rio, uma consulta em psiquiatria chegou a 303 dias de espera em dezembro de 2024 — e passou dos 200 dias em vários meses do ano. É tempo demais para quem precisa de cuidado agora.

O combate à psicofobia não está só em políticas de Brasília. Começa no básico: acolher quem volta ao trabalho, ampliar o acesso e encurtar a fila para psiquiatria na rede pública, facilitar o acesso à psicoterapia — tratamento com eficácia comprovada para muitos casos moderados de sofrimento psíquico —, e escutar sem julgar. Pequenas mudanças que quebram o silêncio e devolvem dignidade.

Se saúde é um direito, não faz sentido transformar a dor em desconfiança contínua. A psicofobia é um preconceito silencioso — e precisa ser enfrentado em voz alta, e em página de jornal.
Victor Corrêa é jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela FGV