Aureo RibeiroDivugação

À primeira vista, os números sobre o investimento brasileiro em educação parecem promissores e até invejáveis quando comparados aos de nações desenvolvidas. O Brasil destina, em média, 4,3% do seu Produto Interno Bruto (PIB) ao setor educacional, superando a média de 3,6% dos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Uma vitória, certo? Infelizmente, a realidade por trás dessas cifras revela um paradoxo alarmante que exige nossa mais profunda reflexão.
Ao mergulharmos nos detalhes, percebemos que o aparente "polpudo percentual" do PIB nacional se dilui de maneira preocupante. Enquanto os países mais ricos da OCDE investem vultosos recursos por aluno, o gasto público brasileiro por estudante do ensino básico representa apenas um terço do que é aplicado por essas nações. A razão? Uma gigantesca população estudantil: mais de 50 milhões de alunos no Brasil, um número que pulveriza esse investimento.
Os dados são categóricos: o Brasil gasta anualmente US$ 3.872 por aluno do ensino fundamental. Essa cifra nos coloca à frente de apenas três outros países da OCDE — Turquia (US$ 3.374), África do Sul (US$ 3.108) e México (US$ 2.790) —, de acordo com o recente relatório Education at a Glance 2025, divulgado em setembro passado. Enquanto isso, potências educacionais como Luxemburgo, Coreia do Sul e Suíça esbanjam investimentos que ultrapassam a marca de US$ 21 mil por estudante. Um abismo que reflete a urgência de repensarmos a eficácia dos nossos recursos.
No ensino superior, o cenário é um pouco menos desolador em termos de investimento por aluno, com o Brasil na média da OCDE, gastando cerca de US$ 15 mil por ano. Contudo, nem mesmo essa equiparação traz motivos para comemorar. A realidade é que 25% dos alunos que ingressam em cursos superiores abandonam a universidade já no primeiro ano. Entre jovens adultos (25 a 34 anos), apenas 24% concluem a graduação, e a proporção de mestres no país não alcança sequer 1% do total. Investir em acesso sem garantir permanência e sucesso é um luxo que não podemos nos dar.
Aprofundando a análise, as discrepâncias se tornam ainda mais gritantes quando olhamos para a base de qualquer sistema educacional robusto: os professores. É inconcebível a diferença salarial que nossos mestres enfrentam. Um professor brasileiro de ensino fundamental (especialmente do 6º ao 9º ano) em início de carreira recebe menos de US$ 25 mil anuais, enquanto a média da OCDE para a mesma categoria supera os US$ 47,3 mil por ano.
Essa desvalorização não é apenas uma questão de justiça, mas um fator crítico que impacta diretamente a qualidade da formação dos nossos docentes. Apenas cerca de 1% dos professores que atuam nesta faixa educacional no Brasil possuem mestrado, contra uma média de 34% nos países da OCDE. Um ciclo vicioso de baixa remuneração e formação precária que precisa ser quebrado.
Este quadro que merece reflexão de todos nós, pois está claro que não basta investir mais, precisamos investir melhor. É necessário otimizar cada centavo destinado à educação para que ele se traduza em qualidade, inovação e, acima de tudo, em um futuro mais promissor para nossas crianças e jovens.
Sem isso, não conseguiremos alavancar o desenvolvimento econômico do país, nem preparar nossa força de trabalho para um mercado em constante mutação e cada vez mais competitivo. É hora de transformar o enigma do gasto em uma história de sucesso educacional.
*Aureo Ribeiro é deputado federal pelo Rio de Janeiro, líder do Solidariedade e coordenador da bancada fluminense na Câmara dos Deputados