Cristina AraripeDivulgação

A ciência é um espelho da sociedade — e, durante muito tempo, esse reflexo mostrou uma imagem desigual. Por trás de grandes descobertas, há histórias invisibilizadas de mulheres que precisaram lutar por reconhecimento, muitas vezes assinando seus trabalhos com o nome de homens para serem levadas a sério. A trajetória da cientista polonesa Marie Curie, pioneira e a primeira pessoa a receber dois prêmios Nobel e a primeira mulher a ser laureada com ele, entre tantos outros feitos, mostra a ponta de um iceberg que ainda hoje revela as barreiras enfrentadas por meninas que sonham em seguir uma carreira científica.

No Brasil, a Fiocruz tem buscado virar essa página por meio de iniciativas que unem educação, ciência e equidade de gênero. Uma delas é o programa Mulheres e Meninas na Ciência, coordenado nacionalmente pela pesquisadora Cristina Araripe Ferreira. Criado em resposta a um chamado da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2015, o programa nasceu com o objetivo de estimular meninas a ingressarem no mundo da ciência e valorizar as mulheres pesquisadoras da Fundação que já fazem a diferença no campo científico.

Mais do que um programa institucional, trata-se de uma mudança cultural. É sobre quebrar estereótipos que ainda associam a ciência ao masculino. É também mostrar que curiosidade, rigor e criatividade não têm gênero. Até porque há muitas mulheres atuando na área da saúde, mas ainda falta a presença delas nas engenharias, nas exatas, nas biotecnologias e em tantas outras áreas equivocadamente consideradas de domínio do masculino. A Fiocruz, ao propor esse movimento, lança luz sobre uma questão estrutural: quem tem acesso à oportunidade de sonhar?

A resposta começa na escola. Ao atuar desde o ensino fundamental até o ensino superior, o programa aproxima meninas da pesquisa e das possibilidades de seguir na carreira científica. São ações diretas como oficinas, rodas de conversa, mentorias com pesquisadoras e experiências realizadas em laboratórios, de forma que as meninas se vejam como pertencentes a esse universo. Com esforço institucional e acompanhamento contínuo, é possível mudar mentalidades e cenários que excluem e discriminam mulheres.
Essas ações se conectam diretamente à Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente (Obsma), outra iniciativa da Fiocruz que aposta na educação científica transformadora. Uma olimpíada diferente, sem provas e com foco em projetos escolares colaborativos. Ali também há o viés da inserção feminina com o prêmio “Menina Hoje, Cientista Amanhã”, que reconhece as estudantes que desenvolvem projetos inspiradores em suas escolas e em suas comunidades.

Esse tipo de incentivo à criação de ambientes inclusivos é mais do que um prêmio: é um ato de reparação histórica para com todas as mulheres que foram discriminadas. É dizer às meninas de hoje que a ciência também lhes pertence. É mostrar que o laboratório não é território de poucos, mas uma extensão da curiosidade humana — e que a sociedade precisa de todas as vozes, olhares e perspectivas para resolver os desafios do nosso tempo.

Porque quando uma menina pisa num laboratório pela primeira vez, ela não está apenas aprendendo e aplicando ciência: ela está reescrevendo o futuro. E, nesse futuro, cabem todos os grupos, as cores, os sotaques e as histórias. A igualdade de gênero na ciência não é apenas uma questão de justiça — é também uma questão de inteligência coletiva. E quanto mais diversa for a ciência, mais poderosa será a sua capacidade de transformar o mundo.
Cristina Araripe Ferreira é pesquisadora da Fiocruz, Coordenadora Nacional da Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente e coordenadora do Programa Mulheres e Meninas na Ciência, da Fiocruz