Iris BazilioDivulgação

Essa é uma pergunta que raramente é feita, afinal ainda existe a crença de que câncer combina apenas com dor, sofrimento e morte. Nunca com prazer. Muitos pacientes sequer têm coragem de perguntar a um profissional de saúde se podem ou não ter relações sexuais.
Minha trajetória com o tema começou em 1999, quando iniciei a pós-graduação em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) e UFRJ, pesquisando a sexualidade de adolescentes com câncer. Foram 24 anos de experiência em uma instituição referência, onde percebi que, entre cirurgias, quimioterapias e radioterapias, ninguém falava sobre sexo.
Na unidade de ginecologia oncológica, via mulheres chorando por apanharem de parceiros após perderem o controle urinário por complicações da cirurgia e do tratamento para câncer ginecológico. Ali nasceu o sonho de criar um Ambulatório de Sexualidade, um espaço para que pessoas com câncer pudessem falar sobre prazer, vergonha, medos e crenças, sem tabus.
A OMS reconhece a sexualidade como aspecto essencial da vida humana, ligada ao prazer, valores e relações. E, segundo Abraham Maslow, o sexo está na base das necessidades fisiológicas humanas tão vital quanto respirar e se alimentar. No entanto, nas anamneses clínicas, raramente perguntamos: “você está tendo prazer?”.
Negar o sexo é negar uma função vital. Maslow também descreve que, em níveis mais altos da pirâmide, o sexo se torna expressão de amor, vínculo, autoestima e autorrealização. Já a Neurociência comprova: o orgasmo libera neurotransmissores que fortalecem o sistema imunológico, reduzem dor, pressão arterial e glicemia.
Em 2024, implantei o Ambulatório de Sexualidade para Mulheres com Câncer de Mama e, em 2025, expandi o projeto para o formato online, com base nas resoluções do COFEN sobre teleconsulta. A mama e o cabelo, símbolos de feminilidade, são profundamente afetados pelos tratamentos, alterando autoestima e desejo.
Durante as consultas, investigamos não só o corpo, mas também as crenças. E muitas vezes, os problemas na cama existiam antes do câncer: falta de diálogo, vergonha, desconhecimento do próprio corpo. Nunca esqueço uma paciente que, após 40 anos de casamento, me confessou nunca ter ouvido falar em orgasmo. Ao descobrir o que era, sorriu e disse: “nunca me senti tão à vontade como hoje”. Ela faleceu pouco depois, não de câncer, mas de infarto. E me fez refletir: quantas pessoas morrem sem nunca terem vivido o prazer de estarem vivas?
Nos atendimentos, também trabalhamos crenças religiosas que associam prazer ao pecado, além de dores emocionais como abusos e traições. Mais do que ensinar sobre lubrificantes ou posições, é preciso curar as feridas da alma. Por isso, utilizo técnicas de Mindfulness e Reprogramação Mental, ajudando cada paciente a se reconectar consigo e ressignificar sua sexualidade.
Acredito que o prazer é uma forma de cura. E repito sempre: quem está com o orgasmo em dia não quer guerra com ninguém! E você? Está com o seu orgasmo em dia?
Iris Bazilio é enfermeira e terapeuta holística