Fernando BiancoDivulgação

A popularização de selfies e filtros digitais deixou de ser apenas um passatempo para se tornar um potente influenciador de comportamento. O chamado “efeito Instagram” é apontado por especialistas como um dos motores do crescimento da harmonização facial. Um estudo da Swinburne University (2025) analisou mais de 200 filtros do Instagram e concluiu que muitos deles promovem traços eurocêntricos, clareamento de pele e até simulações de cirurgias, incentivando padrões irreais de beleza e despertando o interesse por procedimentos estéticos reais.
Os resultados refletem o que já se vê na prática clínica. Pacientes chegam ao consultório com prints de filtros e acreditam que é possível reproduzir aquele resultado na vida real. Mas o que é possível em pixels não se aplica à anatomia, que tem limites e particularidades. O desafio está em conciliar o desejo por traços mais definidos com a segurança e a naturalidade que um procedimento exige. Meu trabalho não é copiar um filtro; é valorizar o que a pessoa tem de melhor, buscando equilíbrio entre beleza e saúde.
O diálogo vai além da estética e toca aspectos emocionais. Quando alguém acredita que só será aceito se parecer com a versão filtrada de si, precisamos falar de autoestima e saúde mental. Harmonização não é máscara: é cuidado. Se a motivação é apenas corrigir algo que um aplicativo criou, é hora de refletir antes de agir. A consulta inicial deve incluir um diálogo aberto sobre limites anatômicos, riscos, expectativas e uma avaliação criteriosa do real motivo que leva o paciente a buscar a mudança.
O fenômeno também levanta questões éticas. A pressão por padrões inatingíveis, reforçada por algoritmos que premiam rostos “perfeitos”, pode levar a procedimentos desnecessários ou resultados artificiais. A medicina estética precisa ser responsável. A naturalidade é o que garante que o paciente se reconheça no espelho amanhã e daqui a dez anos.
À medida que os filtros se tornam mais sofisticados e os aplicativos de edição ganham novas funções, cresce a necessidade de informação de qualidade. Para quem deseja transformar a selfie em realidade, o recado é claro: a tecnologia pode inspirar, mas não deve ditar a própria identidade. A verdadeira harmonização começa com autoconhecimento, escolhas conscientes e, principalmente, respeito à singularidade de cada rosto.
Fernando Bianco é cirurgião plástico, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)