Ele passou pela calçada e olhou para onde pouca gente olha, nos meus olhos. E fez um aceno e disse algumas palavras de quem sabe apreciar.
Apreciei as palavras e a juventude daquele passante.Passamos pela vida. É o que eu venho aprendendo.Ele não se surpreendeu com o meu dizer sobre o varrer dos dias.Parecia o que devia ser dito, afinal, estava eu com a vassoura nas mãos varrendo.
Quem varre varre sujeira. Quem limpa quer deixar limpa a passagem.A dos outros e a nossa própria. Afinal, a passagem é a mesma.
Ele quis saber o que eu varria.Eu disse das sujeiras que se pode ver e das outras.Ele pareceu interessado nas outras. Falei, então, da inveja. É preciso varrer a inveja do mundo.Ninguém é feliz se incomodando com a felicidade do outro. Do outro que sabemos nada. Se soubéssemos, cultivaríamos a admiração, apenas.
Ele gostou. Fez o silêncio dos atentos.E repetiu para si a palavra inveja. Decerto já foi vítima, decerto já vitimou.Aprendemos, também, com os nossos erros e, para isso, é preciso varrer a arrogância. Eita sentimento sem sentimento. Ninguém tem o direito de olhar de cima. De se achar mais.Nem de pisar. Pisar podemos é no chão, Por isso passo a vida a limpar os caminhos.
Se nos sujamos, carregamos sujeiras por outros cantos.Outros cantos não conheço. Conheço por aqui, onde nasci, onde passo a vida a varrer.
Perguntou a minha idade. Respondi. Sorriu ele desacreditando, talvez.Nasci há tanto tempo e tenho o tempo que necessito para fazer o que faço, varrer.
A perversidade também precisa ser varrida. Dói em mim as dores que doem no outro.Dia desses, um menino estava no portão esperando o pai que nunca voltou. Morreu de morte antecipada por ódio de alguém.
Nem bicho eu mato. Bicho suja menos que gente. E dizem que gente tem mais sentimento que bicho.Não sou das filosofias difíceis. Sou da limpeza.Já perdi um filho. Para os homens. Disseram que mataram por engano. Engano é matar.
Lembro o dia. Desengavetei a tristeza que estava engavetada para o momento da morte de alguém amado, mais velho. Meu pai ainda era vivo, mas foi meu filho que morreu.Meu marido morreu, também. No tempo certo, no tempo em que o dia já é noite. Meu filho morreu no amanhecer.
O jovem gastava olhares em mim e ouvidos e perguntava perguntas de quem quer saber.Sei pouco sobre a vida. Só sei que tem que varrer.Se descuidarmos, um pó do passado fica, uma sujeira que gruda e adoece.
É preciso varrer os desânimos. Sou uma mulher de alma. É preciso varrer as desistências. Até choro a dor, mas é a alegria que me faz levantar todo dia.Todo dia nasce um dia.Se o dia é bom? É para ser.
É para a faca ser boa. Depende da intenção de quem usa.É para o fogo ser bom. É só não se queimar nele. É só saber a distância que aquece da que assusta.
A morte não me assusta. A despedida, talvez. Nunca saí do canto de onde nasci, como disse. E não sinto falta.Sinto falta do meu filho. E de quem eu amava conversar e que já não passa por essa calçada.
No céu, não sei se tem necessidade de varredoura. Acho que não. É aqui que se limpa para chegar limpo por lá.
Convidei o jovem para se achegar em minha casa e tomar um café. Tudo muito simples. Quem varre sabe que, depois que se varre, o que fica é a simplicidade. Não tem nada mais bonito do que a simplicidade. Tenho pena de quem não sabe. Ele aceitou o convite, sem nem pestanejar. Um dia eu conto a conversa.
Eu vi que ele reparou no roseiral, que eu trato de cuidar. Brincou com Princesa, a cachorrinha que eu trouxe da rua para amar. E até de uma velha árvore que faz sombra no banco em que a conversa é bem-vinda. A conversa limpa a alma.
Uma alma limpa sorri um sorriso limpo que afasta a neblina que nos impede de ver que há o alto que nos sorri, também, quando entendemos de simplicidade.
Ontem mesmo, foi dia de lua nova.