Oi, gente! Novembro é um mês que nos convida a olhar para dentro e para trás, não com saudosismo, mas com a responsabilidade de quem busca compreender a própria formação social para ajudar a construir um futuro melhorpara a sociedade. A celebração do Dia da Consciência Negra vai muito além de uma data no calendário; é um chamado para refletirmos sobre a importância da nossa história coletiva e sobre os desafios que ainda persistem. Em Saquarema, essa reflexão ganha contornos muito práticos e estatísticos: segundo o Censo de 2022 do IBGE, uma parte significativa da nossa população se reconhece em grupos historicamente atingidos pela desigualdade. Esse dado não é apenas um número; ele representa a alma da nossa cidade, a força de trabalho, a cultura e a história de milhares de famílias.
O grande desafio que encontrei como gestora, e que permeia a gestão pública em todo o Brasil, é como transformar essa realidade demográfica em representatividade real e oportunidades concretas. Como podemos enfrentar desigualdades estruturais e, ao mesmo tempo, valorizar conhecimentos e expressões culturais que ajudaram a formar a nossa nação? A resposta, acredito, reside na integração inteligente entre educação e cultura. Não basta combater o preconceito; é preciso preencher os espaços de poder e de fala com referências positivas, literatura e arte que espelhem a pluralidade do nosso povo.
Em Saquarema, decidimos enfrentar esse desafio fazendo da literatura um palco de valorização cultural. A 4ª edição da Feira Literária Internacional de Saquarema (FLIS), que aconteceu agora em novembro, foi desenhada não apenas como um evento turístico, mas como uma ferramenta de políticas públicas voltada para a formação cidadã, o enfrentamento das desigualdades e a promoção de saberes diversos. Em sintonia com a COP30, trouxemos para o centro do debate autores que dialogam com a terra, com o território e com a nossa história coletiva.
É com muito orgulho que vejo nomes como Conceição Evaristo e MV Bill debatendo sobre inclusão e experiências sociais transformadoras em Saquarema. Quando colocamos autores que representam diferentes trajetórias e vivências no protagonismo — como Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado, e Eliane Potiguara, referência da literatura feita por povos originários — estamos dizendo para as nossas crianças e jovens que suas histórias importam e que suas vozes têm valor. Isso é educação e cultura na prática. A FLIS se torna, assim, um espaço onde o respeito às diversidades e a educação sustentável caminham de mãos dadas.
Fico muito feliz em observar que outras cidades também estão despertando para a necessidade de ações estruturantes nessa área. Em Ribeirão Preto, São Paulo, a Secretaria Municipal da Educação está implementando um projeto exemplar neste mês. Através do Centro de Referência em Educação para as Relações Étnico-Raciais (CRERER), eles estão lançando um inédito “Protocolo de Combate às Situações de Discriminação”.
A iniciativa de Ribeirão Preto é fantástica porque oferece segurança e diretrizes claras para os gestores escolares. Muitas vezes, a escola não sabe como agir diante de situações de preconceito. Com esse protocolo e com a formação continuada para as equipes técnicas, a cidade paulista demonstra uma gestão comprometida com a criação de ambientes seguros e acolhedores. É a eficiência governamental aplicada à proteção dos direitos humanos. Mais perto de nós, aqui no Estado do Rio, a cidade de Macaé também dá um show de cidadania com o projeto “Além da Pele”. Voltado para alunos do Ensino Fundamental e Médio, o projeto intensifica suas atividades agora em novembro, levando o debate sobre igualdade, pertencimento e enfrentamento das desigualdades para dentro das escolas e dos espaços públicos. O que acho mais interessante no modelo de Macaé é que ele está alicerçado em uma base legal sólida, a Lei nº 5.269/2024, sancionada recentemente. Isso garante que a política não seja apenas uma ação passageira de governo, mas uma política de Estado perene.
Tanto a experiência da FLIS em Saquarema quanto os exemplos de Ribeirão Preto e Macaé nos mostram que é possível avançar. A participação cidadã e a escuta ativa são fundamentais nesse processo. Quando o poder público decide enfrentar desigualdades estruturais e promover inclusão com ferramentas pedagógicas e culturais, quem ganha é toda a sociedade. Afinal, uma cidade inteligente e desenvolvida é aquela que não deixa ninguém para trás e que tem orgulho da sua própria diversidade.
E na sua cidade, como esses temas são trabalhados nas escolas e na cultura? Existem projetos que te enchem de orgulho? Compartilhe comigo pelas minhas redes sociais, que você encontra no meu blog (https://manoelaperes.com.br). Vamos juntos construir um futuro onde a igualdade não seja apenas um sonho, mas uma prática diária.
Beijo e até a próxima coluna!
Manoela Peres é secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema, ex-prefeita de Saquarema e Mestre em Administração
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