Roberto GilDivulgação

O câncer é, sem dúvida, um dos maiores desafios de saúde pública deste século. As estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio que se encerra (2023–2025) já indicavam crescimento expressivo no número de casos, e tudo aponta para projeções ainda mais altas nos próximos anos. É verdade que parte desse aumento decorre de melhorias metodológicas, como a qualificação da captação da idade dos pacientes, que pode ampliar a percepção de crescimento de casos entre pessoas jovens. Mas essa é apenas parte da história.
Há evidências de exposição precoce e contínua da população a fatores de risco. O próprio conceito de “juventude” mudou: vivemos mais e, assim, atravessamos um período mais longo como “jovens adultos”. Isso faz com que comportamentos nocivos passem a ocorrer mais cedo e se prolonguem por mais tempo.
Crianças e adolescentes já convivem com um ambiente urbano que favorece hábitos prejudiciais, como alimentação ultraprocessada, consumo de álcool, tabagismo (inclusive em suas novas versões, como os cigarros eletrônicos) e sedentarismo. Somam-se a isso agentes biológicos, como hepatites virais e HPV, que ampliam o risco de tumores evitáveis. E quanto mais se vive, maior a probabilidade de desenvolver algum tipo de câncer. Esse conjunto de fatores reforça a urgência de um olhar profundo para prevenção, vigilância e educação em saúde.
Desde sua fundação, em 1937, o INCA tem sido guiado por uma missão visionária: integrar assistência, pesquisa e ensino à formulação de políticas públicas. Décadas de experiência mostram que políticas robustas, articuladas entre diferentes esferas de atuação, transformam indicadores de forma mais efetiva do que terapias isoladas. Nesse sentido, o país avançou na construção de linhas de cuidado que contemplam prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos.
Ainda assim, um dado persiste: mais de 50% dos casos de câncer chegam aos serviços de saúde em estágios avançados, quando as chances de cura diminuem drasticamente e os custos do tratamento disparam. Para reverter esse quadro, o Brasil precisa fortalecer ações integradas e contínuas. Nenhuma instituição, pública ou privada, enfrentará esse desafio sozinha.
As prioridades estabelecidas pelo governo federal precisam ser compartilhadas por estados e municípios, garantindo que estratégias locais estejam em sintonia com diretrizes nacionais. O Dia Nacional de Combate ao Câncer, amanhã, 27 de novembro, simboliza essa necessária união e marca uma mudança conceitual importante: deixar para trás a ideia de “combate” para adotar a de “controle” — conceito mais amplo, contínuo e sustentável.
O futuro exige coragem, planejamento e responsabilidade. Novas tecnologias e terapias avançam em ritmo acelerado, mas a um custo que pressiona a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Sem financiamento adequado, ampliação do acesso e redução de desigualdades regionais, os avanços científicos não alcançarão quem mais precisa.
O desafio é enorme, mas a oportunidade também. Com prevenção consistente, diagnóstico precoce e políticas públicas integradas, o Brasil pode mudar o curso da doença do século e assegurar um futuro mais saudável para toda a população.
Roberto Gil é oncologista clínico e diretor-geral do INCA