Manoela Peres é secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema, ex-prefeita de Saquarema e Mestre em Administração Divulgação
Manoela Peres: A ponte para o futuro começa na sala de aula
Nas últimas semanas, o Brasil respirou a tensão e a esperança de milhões de jovens com a realização do ENEM. É impossível não se contagiar com a expectativa de quem vê na prova a chance de mudar de vida. Mas, como gestora e alguém que vive a realidade das ruas, sempre me perguntei: e aqueles que nem chegaram a se inscrever? E os que ficaram pelo caminho?
Essa inquietação me acompanhou durante meus mandatos na Prefeitura de Saquarema. Pela Constituição, o município cuida da educação infantil até o 9º ano, enquanto o Ensino Médio é responsabilidade do Estado. Fizemos o dever de casa: reformamos escolas, climatizamos salas, valorizamos professores e garantimos uma educação em Saquarema de excelência na base. Mas eu percebia uma realidade cruel: ao terminarem o 9º ano, nossos jovens entravam em um "abismo".
Havia uma discrepância clara de qualidade quando chegavam à rede estadual. Mais do que isso, faltava perspectiva. Muitos pensavam: por que vou me matar de estudar no Ensino Médio se não tenho dinheiro para pagar uma faculdade e as públicas ficam longe? As opções mais próximas eram em Cabo Frio ou Niterói. O custo com transporte, alimentação e livros tornava o sonho do ensino superior inviável para a maioria. O resultado? Evasão escolar e talentos desperdiçados.
Não podíamos cruzar os braços dizendo "isso não é competência municipal". A dor daquelas famílias era minha também. Foi dessa necessidade de criar um horizonte real que, em 2021, lançamos o COUNI. A lógica era simples e transformadora: já que não podíamos investir diretamente na estrutura do Ensino Médio estadual, criamos o maior incentivo possível para que o jovem não desistisse de estudar.
Atuamos em três frentes estratégicas. A primeira foi o acesso direto: firmamos convênios com seis universidades particulares. Qualquer morador de Saquarema (há pelo menos 5 anos) inscrito no CadÚnico que passasse no vestibular teria sua mensalidade 100% custeada pela Prefeitura. E fomos além das bolsas de estudo: criamos um auxílio universitário (moeda social) de R$ 300,00 para custos básicos. Para quem estuda cursos integrais fora da cidade, como Medicina em Vassouras, esse apoio chega a R$ 1.600,00. Garantimos que a falta de dinheiro nunca mais fosse motivo para parar.
A segunda frente foi trazer a universidade para dentro de casa. Não bastava mandar o aluno para fora; precisávamos criar um ambiente acadêmico local. Incentivamos a instalação de polos presenciais, e hoje temos campus de duas grandes universidades em pleno funcionamento na cidade. Isso gera pertencimento e desenvolvimento educacional no próprio território.
A terceira frente fecha o ciclo virtuoso: o retorno desse conhecimento. Os universitários do COUNI produzem saber sobre Saquarema, o que qualifica as políticas públicas e melhora a qualidade do serviço que entregamos ao cidadão. É a educação servindo à cidade.
Os resultados desse investimento em educação são emocionantes. Já somos mais de 12 mil alunos acessando a universidade pelo programa. Recentemente, entreguei 550 certificados de novos alunos junto com a prefeita Lucimar Vidal. Só na cidade, são mais de 6 mil estudantes circulando, consumindo e vivendo a atmosfera universitária. Mas o dado que mais me toca é o reflexo no Ensino Médio: tivemos um "boom" de matrículas no EJA (Educação de Jovens e Adultos) e uma maior retenção dos adolescentes na escola. O COUNI virou a luz no fim do túnel. O jovem agora sabe que, se ele persistir, o futuro está garantido.
É aqui que entra a importância estratégica do ENEM. Ele é a porta de entrada para muitas dessas oportunidades e um termômetro vital da qualidade do ensino, assim como o ENADE. Investir na institucionalidade do ENEM dentro do COUNI é fundamental para medirmos a eficiência dessa política e, com dados na mão, cobrarmos melhorias no ensino médio estadual.
Essa experiência reforça minha crença de que o acesso à educação no Brasil precisa de um novo pacto. Não podemos depender da "sorte" de ter um prefeito ou prefeita sensível ao tema. Precisamos de um sistema integrado, onde União, Estados e Municípios atuem em sintonia, sem empurra-empurra de responsabilidades. O projeto do Sistema Nacional de Educação (SNE), recentemente aprovado no Congresso, caminha nessa direção: criar um "SUS da Educação".
Acredito que políticas públicas como o COUNI não apenas formam profissionais; elas emancipam famílias inteiras da assistência social. O profissional formado no programa sai pronto, com qualificação profissional de ponta e, acima de tudo, com a dignidade resgatada. Em Saquarema, provamos que quando o poder público constrói a ponte, o povo entende a educação como instrumento de transformação social.
* Manoela Peres é secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema, ex-prefeita de Saquarema e Mestre em Administração

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.