Mônica Costa Boruchovitch Divulgação

Ei, você! Sei que quando chegou a este mundo, há mais ou menos 20 anos, as coisas já estavam bagunçadas. Fato!
Segure-se. Respire. E siga em frente.

O mundo está cheio de guerras, de desigualdade e de injustiça que nos assustam. Fato!
Segure-se. Respire. E siga em frente.

Mas não podemos parar aí. É preciso perguntar: como seguir? Talvez começando pelo simples. Acordando, abrindo a janela para a luz entrar e ver o céu. Depois lave o rosto e arrume sua cama. Se isso foi o máximo que você conseguiu hoje, está ótimo. Viver é isso: um dia de cada vez.

É nesse ponto que defendo uma mudança de postura. Vamos parar de pensar no fim do mundo. Vamos deixar de nos entorpecer com tragédias, tristezas e comparações infinitas, afinal somos seres únicos. Essa mudança requer esforço e determinação. Está disposto?

Proponho consumir com consciência aquilo que a gente lê e vê por aí. O que isso quer dizer? Ler e ouvir com atenção, duvidar e pensar sobre tudo. Somos seres pensantes: bora usar essa capacidade? E, além disso, proponho que a gente se encante com o que temos enquanto estamos aqui.

Encantar! É isso mesmo: buscar encantamento com o céu azul, com sua própria respiração, com a natureza que lhe cerca. Tem terra embaixo dos nossos pés, tem ar para entrar e sair dos nossos pulmões e nos manter de pé. Esse é o sagrado.

E é justamente essa noção de sagrado que precisamos recuperar. Somos parte da natureza. Parte integrante, não senhores da vida e da morte sobre ela. É uma relação de troca. Não é a natureza que precisa de nós, somos nós que precisamos dela.

Se você quiser observar o milagre que é a transformação de sementes em comida, plante uma pequena horta. Mas não se iluda: é preciso cuidar, é preciso de sol, é preciso tempo. Essa é uma boa metáfora para sua vida: sol, tempo e cuidado transformam.

Nem todos os dias são fáceis: família e amigos podem decepcionar, a violência e a perda estão presentes. Mas sol, tempo e cuidado transformam nossa experiência e fazem crescer como sementes que se tornam plantas.

Acorde, abra a janela, arrume sua cama, porque é sua. Responsabilize-se: a vida também é sua. Ninguém pode vivê-la por você.

Ao mesmo tempo em que a desordem parece dominar, existem jovens desenvolvendo projetos incríveis, há gente lendo poesia em uma noite de chuva, jovens que escrevem, dançam e se expressam lindamente, muita gente sendo solidária e trabalhando duro por um mundo melhor.

Por isso, defendo que é o olhar que escolhemos que faz diferença. Não podemos alterar o que aconteceu ou as grandes questões do mundo, mas podemos e devemos buscar pensamentos que não piorem nosso estado de espírito.

No mais, já vivi momentos de ansiedade, medo e dúvidas sobre trabalho, amor e capacidade pessoal. Com o tempo, tudo se organiza, surgem novas perguntas, e vamos aprendendo e construindo vínculos. Tudo isso também passará.

E nada de se deixar levar pela postura cínica de que o mundo vai acabar mesmo, então não ligo, não faço nada. O mundo sempre esteve para acabar, disse Fernanda Montenegro.

Segurem-se. Respirem.
E que sigamos vivendo, pois foi para isso que viemos aqui.

Mônica Costa Boruchovitch é mestre em Psicologia e autora do livro ‘Ninguém é triste o tempo todo’