Fazia um sol bonito no despertar do 8 de janeiro. Amanheci agradecendo.

Escrever é um vertical encontro com o sagrado que faz do nascer das palavras uma razão de estar em algum canto do mundo, escrevendo mundos, para que a horizontalidade das relações humanas seja mais humana.

Agradeci o primeiro encontro com Bibi Ferreira e os tantos encontros em que vivemos a vida. Os seus dizeres firmes. A sua alegria inegociável. O seu talento fazendo do palco um altar em que a vida acontece trazendo o céu à terra, elevando a terra ao céu.

O dia foi dizendo as horas até o momento de estar no SESC Ginástico, palco de tantas vidas entremeadas pelas máscaras da tragédia e da comédia. O teatro está lindo, totalmente reformado. Sua inauguração foi, há não muito, com Fernanda Montenegro. Fernanda, extraordinária, emocionou se emocionando. Lembrou dos tantos textos de cena e das cenas escritas em seu coração por Fernando Torres. No mesmo palco sagrado do teatro, da vida.

As pessoas iam chegando e olhando os seus lugares. E sentando. No palco, a orquestra afinava os instrumentos, enquanto Barbara, Giulia, Luiza e Fernanda olhavam nos espelhos do camarim e da alma e diziam o sim dito por todo artista antes da noite única de cada noite de espetáculo.

O autor, no dia da estreia, apenas espera. Espera que a história contada cumpra o seu papel.E a história na estreia do 8 de janeiro, no Rio de Janeiro, é a de Bibi Ferreira. O início é o lamento da morte da grande atriz, aos 96 anos. Da morte à vida que não morre.

As 4 atrizes eram inteiras na honra à grande atriz. Das cadeiras, nasciam os aplausos e os dizeres entusiasmados de quem ama amar a vida. A vida que vive no teatro.

Bibi foi aplaudida em Paris vivendo Piaf. Em Nova York, Frank Sinatra. Em Portugal, Amalia Rodrigues. No Brasil, vivendo todos eles e tantas elas. Tantas mulheres e uma única Bibi. Cantava ela lindamente também em espanhol. Suas peças dramáticas eram intensas. Como intensa deve ser a vida de quem leva a vida à sério.

O fim do espetáculo deixa uma vontade de prosseguir. De prosseguir amando o amor. De prosseguir respeitando cada mulher, cada homem que faz teatro.

Nas estreias, somos chamados ao palco. Fomos. Queiroz, o presidente da FECOMERCIO RJ se emocionou ao falar dos artistas. Da vida dura de quem vive da arte. Falou, também, de Fernanda e de Bibi. E da entrega ao Rio de Janeiro de um teatro que tem passado e que quer fazer futuro.

Thina, a filha de Bibi, estava conosco no palco. Carlos, o diretor musical, e Gustavo, o diretor da peça, abraçavam Guilherme, o produtor. E uma equipe grande que sabe que cada papel é importante para que as pessoas subam, como sobem as cortinas que significam que há uma história a ser contada.

Bibi ou Fernanda dizem que o tempo não tira a boa tensão ou em palavras mais poéticas, a sensação de borboletas no estômago que antecede a entrada no palco. Tanto uma quanto a outra chamam isso de responsabilidade e de respeito.

Oxalá em todas as profissões, em todas as ocupações na vida, nos ocupássemos desse sagrado que é o encontro com o outro.

Saímos do teatro e vimos a lua. Estava tímida. Meio sorridente. Romantizando, talvez, a noite. Dentro de nós. Fiquei pensando em quantas conversas conversei com Bibi sobre o amor.

Eu era um jovem escritor e ela, a dama, fez um texto meu chamado "De tudo que mora em mim". Como foi benevolente o Autor da vida ao nos presentear com a memória. Em uma vida, vivemos muitas. Como os artistas que sobem ao palco.

O palco é, também, a vida em que temos que sentir o sol bonito que desperta os dias.

A peça seguirá janeiro e entrará fevereiro no Sesc Ginástico. No burburinho da saída, eu ouvia "eu volto, quero trazer minha mãe", "eu quero ver novamente, faz bem para alma"."Eu vou trazer meus filhos, eles precisam saber quem foi Bibi Ferreira".

Eu sei de saber e de sentir o amor de Bibi Ferreira. De saber e de sentir que é o amor a personagem mais linda, mais profunda e mais realizadora que temos que desempenhar no tempo e no espaço do nosso existir.

Como é lindo contar a história de uma atriz que soube viver intensamente o seu papel. E que hoje é sopro de amor nos lembrando do amanhecer ensolarado e dos romantismos do luar.