Jorge Mirandadivulgação

"A expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Por isso, matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Exercitar a soberania é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder".
Foi seguindo essa linha de raciocínio, cruel em certa medida, que o filósofo, historiador e cientista político camaronês Achille Mbembe, de 68 anos, cunhou um termo – a necropolítica - que vem ganhando terreno, sobretudo nas sociedades em que subjugados enfrentam o poder do opressor como freio à ascensão. Ao caracterizar como se dá essa relação, Mbembe acaba por descrever, involuntariamente, a maneira como a política é exercida por uma parcela cada vez mais considerável de agentes públicos no Brasil.
O camaronês tem autoridade no assunto. Ph.D da Universidade de Sorbonne, em Paris, e professor de inúmeras instituições americanas de relevância, como Columbia e Yale, ele se notabilizou por estudos profundos sobre história africana, colonização, política e ciências sociais. A grande maioria de suas obras tem justamente essas abordagens. Numa delas, ao traçar um paralelo com o pensamento do filósofo francês Michel Foucault acerca de poder e subjugação, ele dá um passo à frente.
Numa leitura mais contemporânea de parâmetros de sujeição, Mbembe estrutura o modelo hoje vigente em muitas civilizações, nas quais a soberania das elites é afirmada por meio da regulação de quem deve (ou pode) viver ou morrer. Em populações marginalizadas social e culturalmente, a resistência é exercida na capacidade de resistência que se tem. Não é o que vemos nas periferias do Brasil, em especial nas favelas cariocas?
Quando assistimos, ano após ano, impassíveis, ao surgimento de necropolíticos de diferentes matizes no nosso país, estamos como que participando de uma encenação macabra. Quando assistimos, impassíveis, à saúde ser tratada com desdém por aqueles que priorizam as urnas ao bisturi, estamos reforçando este modelo. Quando a conta de somar das escolas públicas não fecha com as cifras de contratos espúrios, estamos aprovando essa aritmética perversa.
Já passou da hora de a sociedade brasileira, sobretudo aquela parte mais massacrada dela, tentar (pelo menos tentar), adotar posturas que sinalizem para Achille Mbembe e toda a sua corrente de pensamento que as suas teses podem não ser tão absolutas. E que brincar de viver ou morrer cabe apenas ao divino. E não ao necropolítico.
Jorge Miranda é secretário de relações institucionais do município de Mesquita