Júlio FurtadoDivulgação
A lição australiana sobre a educação permissiva
A recente decisão do governo australiano de proibir o acesso a redes sociais para menores de 16 anos reacendeu um debate global que ultrapassa as fronteiras legislativas e entra diretamente na sala de estar das famílias: é necessário desenvolver limites na formação dos jovens. Esta medida drástica, vista por uns como protecionismo estatal e por outros como cuidado necessário, ecoa as advertências sobre os perigos de uma educação permissiva.
Nos últimos anos, tem-se observado um debate crescente a respeito de métodos educativos alternativos aos modelos autoritários e opressores do passado. O modelo de “educação positiva", criado pela psicóloga norte americana Jane Nelsen, surgiu como resposta, defendendo o abandono de castigos físicos, gritos e ameaças. Contudo, existe um equívoco perigoso na aplicação deste conceito: muitos pais confundem a filosofia do respeito com a permissividade, renunciando à sua autoridade parental.
O caso australiano ilustra, na esfera pública, o que já é demanda há muito tempo na esfera privada: a urgência de estabelecer fronteiras. Crianças e adolescentes não têm maturidade para gerenciar suas vidas com bom senso. Ao restringir o acesso digital, a Austrália reconhece implicitamente que o "mercado" da atenção digital é demasiado agressivo para uma mente em formação sem a devida regulação. Na educação positiva, os adultos devem guiar as ações dos mais novos através de referências, e a ausência destes guias — seja por omissão dos pais ou falta de regulação — deixa os jovens vulneráveis.
Um dos pontos mais críticos é a dificuldade que alguns pais têm em sustentar o "não". Preocupados em não desagradar aos filhos e evitar embates, muitos criam indivíduos sem resiliência. A proibição das redes sociais gera, inevitavelmente, frustração e revolta nos jovens. No entanto, a pedagogia sugere que o caminho não é ceder. Diante da desobediência ou da reclamação, o papel do educador não é voltar atrás, mas sim acolher a frustração, a raiva, manifestar afeto e manter a posição inicial.
A combinação de acolhimento com firmeza ajuda o jovem a compreender a função protetora das regras. Quer seja através de uma lei nacional na Austrália ou de um acordo sobre o uso do celular à mesa de jantar, o objetivo final é o mesmo: formar indivíduos resilientes e preparados para os desafios reais da vida, protegendo-os de uma liberdade para a qual ainda não estão preparados.
Júlio Furtado é orientador educacional e escritor

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