André CodeaDivulgação
A educação e os animais
Falar de educação é falar de construção de mundo. E não dá para imaginar um mundo verdadeiramente humano sem respeito aos animais. Quem convive com eles—nas ruas ou dentro de casa—sabe que cada olhar assustado, cada rabo abanando, cada miado tímido é um convite silencioso à empatia. E é exatamente aí que a causa animal se encontra com a educação: no desenvolvimento da sensibilidade, da responsabilidade e da capacidade de cuidar do outro.
Eu atuo nos “três mundos”: na educação pública municipal, nos meus gatos em casa, e nos inúmeros gatos e cães de rua que alimento diariamente. Também convivo com grupos de proteção animal, ONGs e outros protetores. No caso dos animais de rua, não é um quadro bonito: doentes, com fome, com sede, largados à própria sorte. Muitas vezes, sem lugar nos abrigos. É, com certeza, um quadro que precisa da ação da Educação.
A neurociência mostra que comportamentos empáticos se fortalecem quando a criança vivencia situações de cuidado. Estudos da Universidade de Cambridge, por exemplo, indicam que crianças que têm contato com animais apresentam maiores índices de autorregulação emocional e cooperação social. Em outras palavras, ao alimentar um animal, limpar um pote de água ou simplesmente oferecer carinho, a criança treina circuitos cerebrais ligados à compaixão e à percepção do sofrimento alheio.
Escolas que adotam projetos de proteção animal relatam resultados surpreendentes: queda em episódios de bullying, maior engajamento em atividades coletivas e até melhora na autoestima. Algo simples como uma “brigada escolar de cuidados”, visitas educativas a abrigos ou campanhas de adoção já ativa nas crianças um senso de responsabilidade que dificilmente se ensina apenas no quadro ou no livro.
Quando crianças crescem compreendendo que a vida—toda vida—tem valor, elas se tornam adultos menos violentos, mais críticos e mais atentos ao coletivo. Num país em que, apesar das leis, abandono é realidade diária, especialmente em grandes cidades como o Rio, formar cidadãos que reconheçam o sofrimento animal é também formar cidadãos mais humanos.
A causa animal não é um tema paralelo: é um caminho para educar para a empatia. E qualquer um pode começar hoje. Adote, apadrinhe, denuncie maus-tratos, ofereça água e comida a um animal de rua—e, se puder, envolva as crianças ao seu redor nessas pequenas revoluções diárias.
André Codea é professor e ativista da causa animal

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.