Marcos Espínola 2025Divulgação

A política de “tolerância zero” contra barricadas em comunidades do Rio de Janeiro tem se consolidado como um dos eixos centrais das operações policiais. Essa ações são necessárias para garantir o direito de ir e vir do cidadão, sendo uma estratégia para desobstruir vias ocupadas com estruturas erguidas por grupos criminosos. No entanto, a forma como essas ações são conduzidas deve ser melhor analisada pelas autoridades, pois seus impactos sociais e sua efetividade a médio e longo prazo causam questionarmos pra lá de plausíveis.
Por um lado, é inegável que as barricadas representam um controle territorial ilegal que dificulta o acesso de serviços públicos, restringe a mobilidade dos moradores e reforça o poder paralelo. Sua retirada pode, em tese, restabelecer a presença do Estado e facilitar a circulação de ambulâncias, transporte e outros serviços essenciais.
Mas por outro lado, a execução dessas operações frequentemente envolve confrontos armados intensos, afetando diretamente a população local. Escolas fechadas, comércios interrompidos e moradores expostos à violência tornam-se efeitos colaterais recorrentes. A política de enfrentamento direto, quando não acompanhada de ações sociais estruturadas, corre o risco de ser apenas paliativa, com barricadas sendo rapidamente reconstruídas após a saída das forças de segurança.
Além disso, há o desafio da confiança e da credibilidade, ou seja, parte significativa dos moradores vê essas incursões com desconfiança, fruto de um histórico de décadas de ausência de políticas públicas contínuas, além de episódios que feriram ou levaram inocentes a óbito, aprofundando a sensação de insegurança e abandono.
Segurança não se sustenta apenas com presença armada. Não é de hoje que apontamos a necessidade de investimento consistente e de longo prazo em educação, infraestrutura, oportunidades econômicas e diálogo permanente com a comunidade, como caminhos essenciais para a construção de soluções mais eficazes.
Combater barricadas é, sim, necessário. Mas tratá-las apenas como um problema policial pode ser um erro estratégico. Sem uma ação integrada, que combine repressão qualificada com políticas sociais duradouras e envolvendo as três esferas de poder, a “tolerância zero” corre o risco de produzir resultados imediatos, porém frágeis e incapazes de transformar, de fato, a realidade das comunidades.


Marcos Espínola é Advogado criminalista e especialista em segurança pública