A história não começou encantada. Começou como começam histórias que nos machucam por vermos machucados os outros.Um outro machucado é um mundo inteiro.
Um outro machucado era um passarinho, no tempo da história que não passa. Porque o tema dessa história que não passa é a tal liberdade.
Na cidade do interior, no tempo da minha infância, eu vivia em casa dos outros. Comia bolo de fubá na casa de Helena, a professora. Acompanhava as preces, na casa de Adélia, a rezadeira.Nadava no tanque feito piscina, na casa de Marcia, a que tinha vindo da capital cuidar da mãe. Visitava as hortas no quintal de Teodoro.
Jogava bola no campinho em frente à Igreja. Ia ver a banda na praça dizendo ser domingo. E gostava de estar em casa esperando meu pai voltar da loja e trazer o pão para comermos com a manteiga feita na nossa cidade e tomarmos café e agradecermos viver. E tinha a velha estação de trem em que íamos ver o dia se despedindo, fazendo bonito no brilho do sol nas águas do rio.
Havia um Lucio, meu amigo, que morava perto do tal rio do pôr do sol, perto de umas árvores em que passarinhos cantavam a vida sem preocupações que não a de cantar, voar, se alimentar e amar.
Um dia, Lucio me chama para dizer de sua coragem e de sua esperteza. Armou um alçapão. Preparou tudo. E um sabiá, distraído, despido de desconfiança se deixou capturar.O passarinho havia se debatido no início, dizia Lucio: "Agora está quieto".
Eu não sabia o que dizer. Por que prender o sabiá?Prender um outro jamais será um ato de coragem. Pensei e repensei, naquele tempo cujo tempo permaneceu, no que fazer para o convencimento do meu amigo. Pensei na minha vida de casa, em casa sem gaiolas, sem prisão.
Eu olhava para o passarinho e me via passarinho.E ouvia o canto dos passarinhos livres tão perto dali.Lucio era bom. Só fez o que fez porque ouviu um outro que fez. E quis saber se conseguia.
Do alto dos meus seis ou sete anos, resolvi tentar convencer.
"E o pai dele, e a mãe?"
Lucio ficou olhando para minhas palavras.
"Vai prender também?"
Lucio nada dizia.Então, eu prosseguia sabendo que as palavras estavam se assentando.
"Ele parece triste, não acha?"
Lucio resmungou alguma coisa.
"Não entendi?''
Disse nada ele. Só ficou ouvindo os que cantavam. Tão perto dali. Tão livres. Com os seus. E, então. ele abriu a gaiola.
"Pode ir com seus pais e seus irmãos", Lucio disse.
E ele foi. Voou e parou perto dali em uma árvore do quintal. Havia um outro sabiá. Eles se encostaram. Quem era o outro, não sei. Talvez uma namoradinha sabiá.Foi bonito de ver. É bonito de lembrar.
Quando fui aprender filosofia, aprendi um outro conceito bonito de tempo. O tempo que se conta, quando voamos em direção ao ideal mais alto das nossas vidas. O ideal que nos ensina a tal liberdade.
Lucio, hoje, é médico. Prosseguimos amigos. Tanto tempo depois. E ele nunca se esqueceu do dia em que sentiu o sentir do passarinho.
O tempo da vida é para o sentir. O sentimento é tempo que para, que estaciona outros tempos, para encantar. Se eu tivesse incentivado Lucio, naquele tempo, a aprisionar passarinhos, talvez, no tempo de hoje, ele fosse um aprisionador. Talvez até sofresse por ser assim. Não sei. Sei que ele é médico que sente o sentir do outro, que acalma as vidas, quando as vozes se esquecem do canto. Que prepara os cantos para que a vida possa a voltar a sentir encantamentos.
No tempo de hoje, tento, como aprendiz de canto, não prender e nem deixar que me prendam. No tempo de hoje, tento contemplar o tempo, inclusive, o de ontem, quando o tempo ensinou a ensinar ao tempo o tempo do permanecer. O que nos faz voar em direção ao ideal, a tal liberdade.
E nós, diferentes dos passarinhos, sabemos que tudo passa e que, um dia, passaremos... então, aproveitemos o tempo que temos para permanecer.

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