Isa Colli é jornalista e escritora Divulgação
Isa Colli: A ética das pequenas permissões
Há histórias que parecem improváveis demais para serem verdade. Se aparecessem num romance, talvez fossem consideradas exageradas, construídas para causar impacto. Mas a realidade, às vezes, se aproxima da ficção. E talvez seja justamente por isso que determinados acontecimentos nos perturbem tanto: porque nos lembram que o improvável também acontece.
O caso do servidor público Vanderley dos Santos Gomes, morador do interior da Bahia, que foi condenado após amputar o próprio pé na tentativa de obter uma indenização milionária de seguros, produz esse tipo de desconforto. O espanto inicial é inevitável. Como alguém chega a um ponto tão extremo?
A resposta imediata poderia ser a ganância, mas isso talvez não baste para explicar o que mais inquieta nessa história, já que o que impressiona não é apenas o ato final, mas o percurso até ele.
Existe uma ideia de que decisões extremas acontecem de forma repentina, como se alguém abandonasse seus valores de um dia para o outro. A questão é que o comportamento humano raramente funciona assim. Grandes mudanças quase nunca surgem de repente. Elas vão sendo feitas aos poucos, em pequenas concessões.
Primeiro aparece uma justificativa. Depois uma exceção. Em seguida, uma adaptação do próprio senso de certo e errado. O pensamento raramente se apresenta como erro.
“É só desta vez.”
“Ninguém será prejudicado.”
“Depois eu resolvo.”
São frases pequenas que, aos poucos, vão transformando princípios em negociações.
Isso diz muito sobre a ética. Ela quase nunca desaparece de uma vez. Na obra clássica “Ética a Nicômaco”, o filósofo Aristóteles defende que o caráter humano é formado pelos hábitos e pelas ações repetidas. Virtudes e desvios não surgiriam de um único gesto isolado, mas daquilo que escolhemos fazer repetidamente até transformar escolhas em modo de viver. Essa ideia costuma ser lembrada para falar de virtudes, mas também permite uma reflexão inversa: certas decisões não mudam apenas nossos resultados, mudam quem nos tornamos ao tomá-las.
É claro que o episódio que ganhou repercussão está muito distante da experiência cotidiana da maioria das pessoas, mas casos extremos funcionam como lentes de aumento. Tornam visíveis mecanismos que aparecem em escalas menores todos os dias: quando relativizamos uma regra porque parece inconveniente, quando aceitamos um atalho porque o objetivo parece justificável ou quando trocamos convicção por conveniência.
Talvez por isso certas notícias provoquem mais do que choque. Elas nos obrigam a encarar uma pergunta desconfortável: o que estamos dispostos a “perder” para “ganhar”? Diante de alguns casos reais, esse questionamento parece mais atual do que gostaríamos de admitir.
Isa Colli é jornalista e escritora



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