Foi a primeira vez que fomos. Meu pai havia lavado o carro e ajeitado tudo com muito carinho, inclusive as cobertas. Disse que ficaríamos em um hotel. Ele e mamãe em um quarto. Nós, os irmãos, em um outro.
Era incomum viajarmos assim. O comum era a praia, onde tínhamos uma pequena casa e dormíamos todos em um único quarto. Algumas vezes também iam avô, avó e tia.
Eu devia ter uns 7 anos. E como era o mais novo, não tinha o direito de exigir nenhuma das janelas, o que me irritava pela ausência de justiça, argumentava eu, já amigo das palavras àquela época.
A viagem transcorreu bem. Tínhamos roupas que nos agasalhavam. Comemos comidas diferentes. Fomos ao parque, ao bosque, compramos chocolates fabricados na montanha. Era bonito ver nada por causa da cerração e ver o sol vencendo tudo e iluminando o vale.
Foram poucos dias. E na volta é que conheci o meu triste irmão cão. Argumentei pedindo a janela. Meu irmão cedeu depois de um olhar do meu pai. Foi quando vi um cão correndo atrás de um carro, logo depois de ter sido deixado no início da estrada. Era como se o cão imaginasse algum engano. Aquela família não faria isso com ele. Fez. Pedi para pararmos. O frio era muito. O cão acabou caindo, enquanto corria, em uma água, poça de chuva. Chovia. Chovia e aquela família, depois de passar alguns dias das férias, jogou fora o cão. Meu pai disse que era comum. E eu chorei. Chorei muito. Não sei o que aconteceu comigo. Mas o meu choro foi tão convencedor que o meu pai disse que poderíamos levar o cão. E levamos.
Enrolado em um pequeno cobertor, em meu colo, o cão parou de tremer e começou a lamber as minhas mãos. E morou conosco até ir embora para o céu dos cães. Porque há de haver. É muita bondade para terminar por aqui.
Faz tanto tempo o tempo desse amor. Dei a ele o nome de Chico. Na cidade pequena onde morávamos, Chico ia comigo até a escola. E depois voltava para casa. E ficava esperando a minha chegada. E pulava de alegria quando eu acordava. Ele dormia ao lado da cama. E a alegria dele não tirava férias. Ele ia comigo ao campo de futebol. Esperava enquanto eu jogava as partidas. Ia também nas cachoeiras. Como era gostoso tomar banho com ele.
Lembro dos escritos de um filósofo e do seu choro de dor depois de ver um cavalo sendo açoitado. Abraçou o filósofo o cavalo e chorou com ele. Lembro de um riso de um homem mostrando um vídeo em que se ouvia um grito de um porquinho sendo morto. Lembro do que fazem com os gansos e patos para produzir uma comida dita sofisticada. Sofisticado é não ser cruel.
Um dia, voltando da faculdade, não vi a festa de Chico. Ele estava em um canto do quarto, apenas olhando sem nenhum movimento. Eu o coloquei no colo, como daquela vez, naquele dia de chuva, naquele inverno dos seus sentimentos. E abracei o mais que pude. Ele já era bem velhinho. Viveu mais de dez anos com a gente. Ele olhou para mim e ainda conseguiu abanar o rabinho e, depois, deitou a cabeça no meu abraço e nunca mais levantou.
Eu chorei. Choramos muito em casa. De alegria, também. Ele poderia ter ido embora naquele dia se eu não estivesse atento. Se o meu irmão não me deixasse sentar perto da janela. Se eu não tivesse visto o que nunca ninguém deveria precisar ver. Se meu pai não tivesse o coração que tinha e não tivesse me autorizado a cuidar de Chico. Até na missa ele ia comigo. Tão comportado. Quando alguém dizia alguma coisa, eu explicava: "Ele tem nome de santo".
O tempo foi me ensinando que aqueles ensinamentos que vinham do meu pai, que sorria com os olhos, que abraçava a bondade como a mais luminosa das virtudes, é o que vale.
Quando vejo os estados de fadiga pela corrida insana de querer ser o vencedor em um competição que nem se sabe o que é, lembro da leveza do meu pai. Do ensinamento e da sua autorização para os gestos de amor. É o amor que nos faz ricos. E a riqueza só tem sentido, quando é compartilhada. A avareza das coisas e dos sentimentos nos desautorizam a felicidade.
Há um outro filósofo que dizia: "Amar alguém é dizer-lhe; tu não morrerás jamais". Meu pai vive. E vive também Chico a criatura que me ajudou a viver a compaixão e, em troca, ofereceu um amor sem limites.
Que bobagem seria querer limitar o amor...

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