Rafael Baptista de MeloDivulgação
A primeira reação é pensar em birra ou falta de limites. Mas, no meu dia a dia no consultório, olho por outro ângulo. O que mais preocupa é o que esse formato de entretenimento está ensinando. Afinal, o comportamento é moldado pelo ambiente.
Esses vídeos rápidos e cheios de cortes frenéticos funcionam como máquina de prêmios instantâneos. A cada dois ou três segundos, uma novidade. Muda o cenário, o som, explode uma cor. O cérebro recebe uma enxurrada de recompensas sem o menor esforço. Só que o mundo fora das telas não funciona nesse ritmo.
A vida exige tempo. Uma conversa não muda de assunto a cada instante. Montar uma torre de blocos exige persistência, porque ela vai cair várias vezes antes de ficar pronta. Na escola e na vida, é preciso escutar, esperar a vez e lidar com o erro. Habilidades que dependem de treino. Quando a gente acostuma a criança a um ambiente digital onde tudo acontece num estalo de dedos, a realidade parece insuportável. A paciência é como um músculo que enfraquece se não for usado.
No consultório, costumo ouvir: "Mas ele fica tão concentrado assistindo!". Existe diferença entre a atenção capturada e construída. O vídeo prende o olhar pelo excesso. Isso não ensina a focar. A criança é levada de um estímulo ao outro, sem tempo para digerir, imaginar ou escolher.
E chegamos ao tédio, aquilo que passou a ser evitado a todo custo nos tempos modernos. Mas é no espaço vazio que a mente infantil trabalha. É na ociosidade que surge a chance de inventar um jogo, de organizar o pensamento ou de procurar alguém para conversar. Quando preenchemos cada segundo da ociosidade com tela rápida, retiramos da criança a oportunidade de desenvolver ferramentas internas para lidar com o mundo.
Não se trata de culpar famílias. Criar filhos cansa e a rotina, às vezes, sufoca. Os pais que entregam a tela não estão errados; estão tentando dar conta de tudo. Mas, se queremos ajudar, precisamos mexer no ambiente. Se houver tempo de tela, que sejam conteúdos lentos, com histórias. Aqueles desenhos antigos, onde o ritmo respeita o tempo humano.
Na prática clínica, crianças que consomem conteúdos hiperestimulantes tendem a ficar irritadas, intolerantes ao "não" e impacientes com tarefas simples. Não é um defeito delas, é o resultado de um treino diário de pressa. Educar não é só mandar desligar o celular. É criar espaço para que o mundo real seja interessante de novo. É convidar para cozinhar junto, espalhar papéis no chão, aceitar a calmaria e descobrir que as experiências mais bonitas do crescimento não cabem em 15 segundos.



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