ia Aurélia arrastava o mundo naquelas chinelas. As pernas, gastas pela vida, acordavam cansadas. Na alma, estavam o não dito e a espera. Dizia que o filho escolheu o caminho errado.
Tia Aurélia arrastava o mundo naquelas chinelas. As pernas, gastas pela vida, acordavam cansadas. Na alma, estavam o não dito e a espera. Dizia que o filho escolheu o caminho errado. Tia Dulce dizia que não. Que tudo na vida está escrito. Que ninguém muda o destino.Tia Aurélia falava que gente não é planta que se olha a semente e se sabe no que vai dar. Gente é diferente.
Tia Dulce sempre defendeu o sobrinho, que era um pouco seu filho, também. As duas eram irmãs.
O filho de tia Aurélia não suportou o abandono da mulher e foi ter com a vida um encontro errado. Morreram todos. O fogo consumiu a casa em que estavam. E as cinzas daquele tempo nunca mais deixaram de estar.
Tia Dulce nunca se casou. Dizia não ter jeito para as coisas complicadas. Cuidou dos pais, da irmã adoecida com a morte do filho e de si mesma, do seu jeito. O prazer estava nos bolos que fazia e no preparo da mesa que estendia para servir o café do entardecer do dia. O prazer estava, também, no conversar com a horta que tinha no fundo do quintal, como se fosse ouvida. Retirava o que não prestava e o que prestava colhia com carinho para o alimentar.
Eram vizinhas nossas. Não eram propriamente minhas tias, mas era assim que eu as chamava. Que muita gente chamava. Tia Dulce dirigia automóvel. O que era uma raridade para as mulheres naquele tempo.
Quando tia Aurélia ouviu do filho o inaceitável, fez de tudo, mas nada amaciava aquele dia de desencontros.Quando nos desencontramos, desperdiçamos a delicadeza do amanhecer. Quando nos desencontramos, prolongamos a noite. Quando nos desencontramos, a nossa humanidade corre riscos.
Os dias de tia Aurélia nunca mudaram de assunto, desde o dia do fogo. Tia Dulce culpava o desamor; de fato, é insuportável amar e não ser amado. A irmã desmentia. A vida é costume. É só deixar amanhecer. Dizia e silenciava. E do seu silêncio escorria toda a solidão do mundo na espera de um filho que não vinha.
As irmãs falavam de antes, de antes do fogo. Da cor errada das conversas. Da cor errada das conversas infinitas.Principalmente, das de dentro dele.
A mãe dizia que, quando não se sente diminuído, não se é diminuído, que, quando não se sente desamado, não se é desamado. Dulce não concordava e apelava ao destino. O que tem que ser é.
Elas não brigavam, mas nunca concordavam.Não poucas vezes, tomei o café de tia Dulce e apreciei aquelas conversas. Frases nascidas na dor eram ditas. "O erro dele foi querer que ela fosse uma outra pessoa. Ela, com ele, já tinha desistido de existir. Ela até tentou o amar, mas não é assim que o amor acontece". E por que não? E, então, tia Aurélia retrucou com mais autoridade: "Você, por acaso, já amou alguém?".
A irmã gargalhou: "Muita gente, inclusive, você". A outra meneou a cabeça, falava de outro tipo de amor. Do que nos desacostuma do mundo de antes. Do que nos retira a sanidade. Do que nos faz escolher o fogo. O fogo nem sempre é morte.
Tia Aurélia falou, então, do marido, morto há tanto. Que bom que não viu o filho fazendo as escolhas erradas. "Não é escolha", retruca a irmã. Falou de quando os seus olhos se encontraram. Eram verdes os olhos do marido, neles era possível ver uma floresta inteira. E um tempo de amor sem fim. Foi desejo até a doença levar.
A irmã volta ao tema do destino. Tia Aurélia falava da distância que nunca existiu entre eles, ao contrário do filho e da mulher que ele quis decidir. Ninguém decide o amor do outro.
Tia Aurélia me olhava com amor e dizia que eu aprendesse com a vida dos outros. Que eu escolhesse o caminho correto. Que a vida era uma aventura que merecia coragem e sabedoria.
Sombreando a conversa, uma música de Bach lembrava que o que é bom permanece.
As irmãs morreram no intervalo de vinte e quatro dias, o mesmo número das horas de um dia. Morreram de morte morrida, depois de anos vivendo de discordâncias e de amor.Será que a morte delas já estava certa em algum livro que diz tudo, antes mesmo de nascermos? Ou será que é a liberdade que diz o tempo e o jeito como existimos?
Prefiro pedir ajuda a Sócrates e ao seu "só sei que nada sei". Prefiro prosseguir sentindo e lembrando e vivendo as escolhas que me cabem nesse tempo tão pequeno que passamos por aqui.
Parece que foi ontem aquele dia, aqueles dias, aquele café, aqueles cafés. Aquele dia em que ouvi, mais uma vez, para prestar atenção à delicadeza do amanhecer.
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