Havia uma senhora na cidade da minha infância que gostava de passarinhos. Lembro-me com carinho das feições do seu rosto, da voz que amansava a vida, do nome de santa, Teresa.
Mesmo em dias de chuvas fortes, em que as árvores do seu quintal enlouqueciam, ela aguardava o tempo bom. E dormia depois do almoço, sei disso porque, não poucas vezes, almoçava com ela. E com seu neto, Gustavo, da minha idade. Ela pedia licença para se distrair do dia e descansar o pensamento.
No quintal, havia uma espécie de tanque aumentado que usávamos como piscina, em dias quentes. E tinha a Fabiana, a outra amiga inseparável.
Teresa era viúva. Gostava de falar sobre o marido. Sobre as viagens que fizeram juntos. Uma vez, foram ao estrangeiro e receberam a bênção do papa. Ela nunca se esqueceu. E nunca deixou de dizer daquela viagem tão longe e tão perto na sua memória.
Na casa de Teresa, havia passarinhos. Havia ninho de passarinhos. E ela gostava de ver os nascimentos, os piados, os barulhos, o canto. Fabiana falava dos passarinhos do seu pai, criados em gaiolas. Falava com tristeza. Não queria que eles fossem presos. Falava do irmão que armava um alçapão para pegar. Eu também ficava triste. Imaginava uma família de passarinhos passeando e um deles, por distração, preso em um alçapão. Que dor para aquela família. Que covardia para quem armava para prender, para fazer sofrer.
Teresa era uma mulher da atenção. Queria saber o que estudávamos e o que pensávamos sobre o que estudávamos. Ela dizia que o pensamento era um presente de Deus aos humanos para que deixássemos nascer de dentro o que deveríamos fazer fora. E eu achava bonita aquela explicação. E achava que o pai e o irmão da Fabiana nada entendiam de pensamento.
As duas imagens foram percorrendo a minha vida. Os ninhos e as gaiolas. Os ninhos são aconchegos de amor onde estar é uma escolha. As gaiolas matam as escolhas. O amor só é amor se é ninho. As gaiolas mantêm as pessoas por impossibilidades de reação, por medo e até por costume, mas nunca por amor. O ninho é um convite a permanecer, é um alimento que faz bem, é um aconchego que jamais impede o voo. A gaiola desacostuma o voo e faz a alegria ser apenas lembrança.
Teresa, quando dizia da viagem, dizia que havia experimentado a doçura da vida. E que o marido, quando se foi, foi com o sorriso de quem viveu as delícias. Triste de quem volta para a eternidade sem esse experimentar.
Um dia, Fabiana abriu as gaiolas e soltou os pássaros. Ela já morava fora. Fez isso em uma visita. Fez e foi embora. Foi como se libertasse das infâncias dolorosas. O pai de Fabiana, além de aprisionador de passarinhos, machucava a mulher. E o irmão não floresceu bondades, viveu das amarguras dos que impedem felicidades.
Nos encontramos a semana que passou, Fabiana e eu. E falamos das gaiolas que nos prendem por descuidos nossos. Que trabalho dá se libertar!
Gustavo mora em outro país. Vez em quando, nos falamos. Há tantas vidas em uma vida. Há tantas claridades de madrugadas que rompem a noite e entram pela porta da alma.
A minha alma é ninho. Quem quiser se aconchegar que venha. E voe, quando quiser. E volte se tiver saudade. E se alimente de amor. Eu gosto de passarinhos e da liberdade que eles inspiram...