Roberto Rangel é médico de Família e Comunidade, professor universitário, gestor público e presidente da RioSaúdeDivulgação
Roberto Rangel - ‘Super El Niño’: a saúde precisa se antecipar
O risco mais evidente do El Niño está no calor, na fumaça e nas chuvas extremas. O menos visível está na pressão sobre a saúde pública. Se o fenômeno pode ser acompanhado com meses de antecedência, esperar o aumento de pacientes nas unidades significa perder tempo para prevenir.
Confirmado em junho, o El Niño deve permanecer até o início de 2027. O Painel El Niño 2026-2027 aponta alta possibilidade de intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão. A previsão indica mais chuva em áreas do Sul, redução das precipitações no centro-norte e temperaturas elevadas em grande parte do país.
Isso não significa que todos os eventos extremos ocorrerão. O El Niño não provoca isoladamente uma enchente, uma onda de calor ou um surto. Seus efeitos interagem com o saneamento, a moradia e a capacidade de resposta de cada território. A previsão, porém, permite agir antes.
Um informe do Ministério da Saúde mostra parte do desafio. Entre 26 de julho e 1º de agosto, 746 municípios registraram, por pelo menos dois dias consecutivos, concentrações acima do valor diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde de material particulado fino, o MP2,5. São partículas microscópicas presentes na fumaça das queimadas e em outras fontes de poluição. Por serem muito pequenas, podem atingir as partes mais profundas dos pulmões. Nesses municípios viviam 68,5 milhões de pessoas.
O dado não atribui diretamente a poluição ao El Niño, mas dimensiona a população sujeita à fumaça, que pode agravar doenças pulmonares e cardiovasculares. Nas regiões com estiagem, somam-se riscos como desidratação, baixa umidade e incêndios. Onde houver enchentes, crescem os riscos de traumas, leptospirose e doenças relacionadas à água contaminada.
Mudanças de temperatura e chuva também podem favorecer a circulação do Aedes aegypti. Uma projeção do InfoDengue, da Fiocruz, citada pelo Ministério da Saúde estima cerca de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027. Não é uma sentença: o resultado dependerá do saneamento, da imunidade da população e das ações de controle.
Informações meteorológicas precisam entrar na gestão da saúde com a mesma seriedade dos dados epidemiológicos. Alertas de calor, fumaça e chuva devem orientar a comunicação, o acompanhamento das pessoas vulneráveis e a organização dos serviços. A atenção primária é estratégica porque conhece o território e pode identificar mudanças antes que se transformem em complicações.
O El Niño passará. A capacidade de antecipação da saúde não pode ser temporária. O clima deixou de ser uma variável externa ao cuidado. Prevenir, neste caso, significa transformar previsão em planejamento e alerta em resposta antes que a emergência chegue aos serviços.
Roberto Rangel é médico de Família e Comunidade, professor universitário, gestor público e presidente da RioSaúde

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