Thiago Ramiresdivulgação
A primeira vez que assisti a uma grande montagem de teatro foi na Lona Cultural Elza Osborne, em Campo Grande. Sou cria de lá, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Inesquecível a versão da tragédia grega “Medéia”, dirigida por Bia Lessa, com Renata Sorrah e José Mayer em cena. Equipamento cultural da prefeitura na época, a Lona proporcionou acesso a projetos notáveis para quem evitava atravessar a Avenida Brasil atrás de espetáculos no circuito Centro-Zona Sul, sempre povoado pelas temporadas mais concorridas com artistas nacionais ou estrangeiros. Ali, ainda adolescente, conheci o trabalho de profissionais em suas melhores atuações. E aquele momento foi possível, sobretudo, pela descentralização praticada na política cultural da prefeitura de então. Quem diria que, duas décadas depois, eu me tornaria um trabalhador da cultura que ainda guarda em mim a semente que foi plantada por Bia Lessa.
Trago aqui a cultura como base da construção de sentidos, abstrato e material. Mais ainda, de forma transversal, a cultura como cultivo. Vale destacar que as palavras cultura e cultivo têm a mesma origem, o latim colere. Ambas significam cultivar. Entendemos a cultura, talvez em demasia, associada ao abstrato, mas a sua dimensão é também concreta. Nas culturas religiosas de matriz afro, o axé (significado de energia em iorubá) se faz presente e materializa-se nas manifestações. Sim, há a palavra, que vai gerar ideias acerca de liturgias, antes até, perpetuando conhecimento pela tradição oral. Mas é também matéria sonora, adornos, objetos que simbolizam divindades e alimentos ritualísticos, enfim. Para o ocidente, a cultura é material, sobretudo, no patrimônio edificado através de séculos de estilos de arquitetura, em desenhos desde a arte rupestre, em desenhos sobre papel, na pintura, esculturas e objetos de arte. Cultura é também o abraço; o afeto que acolhe durante o ensino; e a comunhão de uma turma em busca do aprendizado. Cultura está na mão da professora que ensina o aluno a escrever.
E sobre isso eu entendo: minha mãe pegou na minha mão e direcionou meu traço a caminho da escrita, me fazendo desenhar as primeiras palavras. Grande referência em meu trajeto na cultura e na educação, professora, alfabetizou dezenas de crianças em Vila Nova, Campo Grande e, não satisfeita, fez com que adultos e idosos analfabetos escrevessem. Foi e é uma operária do letramento. Junto a isso, fui uma “criança de quintal”, criado em um quintal não de subúrbio, mas onde o Rio é mais interiorano: a Zona Oeste. O quintal era o meu universo particular; meu gabinete de curiosidades onde meu balaio de brinquedos eram as plantas (permeadas de saberes ancestrais) e os pequenos elementos que a natureza disponibilizava.
Na atualidade, é comum a abordagem do termo “letramento” como ponte para o entendimento de temas enraizados, algumas vezes, de forma equivocada e até manipulada. Me dedico a investigar como manifestar essa ideia abstrata em projetos concretos. Letramento é educação. Se em setembro comemoramos a alfabetização, outubro é o Mês do Mestre. Estou entrando na maioridade vocacional e aprimorando os meus “letramentos” particulares. Desde 2008, me aventuro pelo território da Produção Cultural seguindo as setas do cultivo das ideias, do aprimoramento dos saberes para alcançar modos de distribuição mais igualitários de conhecimento. São 18 anos de estrada após a faculdade de Produção Cultural na UFF e o Mestrado na UFRJ, duas instituições que me fizeram transver o mundo, como dizia o poeta Manoel de Barros. Minha forma de comemorar é assinando projetos multidisciplinares como o “Joias do Brasil: talentos que inspiram”, que impulsiona artistas empreendedores, capacita o público 60+ e ainda descobre jovens estudantes pesquisadores no campo da biodiversidade e sustentabilidade. O “Ekodidé, a busca pela igualdade”, que propõe ações de letramento racial, em diversidade e de gênero, ou “Jovem ConstruTech”, que através da cultura maker educa sobre patrimônio, artes, arquitetura e engenharia, além de “Empoderando a Aprendizagem”, que também através das artes catalisa o aprendizado de idiomas, informática e inteligência artificial, o que chamam hoje de “hard skills”.
Esse conjunto de ações têm um ponto em comum: proporcionar janelas de aprendizado e impulsionamento de carreiras em consonância com as linguagens artísticas e em que a cultura seja efetivamente o terreno sempre arado para o cultivo de saberes capazes de reverberar em perspectiva cidadã e acesso a profissões que ainda nem foram inventadas. No ambiente escolar, ou quaisquer ambientes, a cultura tem o poder de enraizar e fazer germinar talentos. Que possamos lembrar: o cultivo do maracujá precisa da mamangava, um besouro polinizador, para a sua disseminação. Sem ele, nem flores, nem frutos ganham forma.
Historicamente, percebemos que a cultura e a educação são atribuições das políticas de Estado, e de fato prioritariamente devem ser, ao passo que a iniciativa privada tem tomado essa pauta como responsabilidade social e ambiente para exercício do impacto positivo em territórios, possibilitando aspectos de pertencimento entre as organizações e as pessoas no entorno comum a empresas e habitantes. Grandes marcas contribuem para a manutenção desse ecossistema, tendo o incentivo à cultura como um dos faróis que posicionam as suas práticas ESG. Políticas públicas, iniciativas de grandes organizações, produtoras culturais, escola, instituições, todos coletivamente formam uma grande teia capaz de implantar projetos de futuros possíveis. E, naturalmente, o jovem deve ser colocado no centro do debate, entendido como protagonista do teatro social em que o acesso à cultura também é de responsabilidade coletiva.
Em tempos de eleições, o tema da cultura segue nebuloso. A predominância do combate à violência nas propostas é visível em grande parte dos candidatos, quando na verdade, entendo a cultura como uma valiosa aliada para mediação de conflitos, exercício da justiça social e respeito aos direitos humanos. Conceito impulsionado pela ONU como fundamental para o desenvolvimento humano, a “cultura da paz” é um exercício diário da rejeição à violência e cooperação entre a pessoas. Trazendo para o microcosmo escolar, a arte e a cultura são ferramentas hábeis para saúde mental, conexão positiva entre as pessoas e comportamentos anti-buylling.
Não é à toa que o ODS 16 da ONU visa promover a defesa da paz, justiça e instituição eficazes. Justamente quando trazemos a arte-educação para o ambiente da formação gratuita e massiva por excelência – a escola pública – temos uma potente ferramenta para diminuição das arestas e preconceitos entre grupos e pessoas. Através da literatura de Conceição Evaristo, referência em ações de letramento de raça, falamos de paridade racial; com educação patrimonial, resgatamos a pactuação das pessoas com a coisa pública; com as canções da Liniker, falamos da equidade LGBTQIAPN+ em ações de letramento em diversidade. Assim, vamos paulatinamente auxiliando a construção e exercício das ideias de igualdade, do respeito à vida e à dignidade humana, uma das bases da cultura da paz. E, ainda, fortalecemos a própria escola como instituição.
A escola pública e espaços não formais (e formais) de cultura podem (e devem) ser esses ambientes para promoção da ideia de sociedades pacíficas e inclusivas. Oxalá consigamos cultivar a arte-educação como veículo fértil para educação em busca de caminhos para paz.

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