Isa Colli, jornalista e escritoraAcervo pessoal
Isa Colli: Os muros que nos separam
Ser gentil é uma forma de resistência à indiferença e à desumanização
Vivemos em um mundo de contrastes. Enquanto a tecnologia aproxima continentes e permite que pessoas de diferentes culturas se comuniquem em segundos, guerras, conflitos, preconceitos e manifestações de intolerância continuam levantando muros entre povos. Em diferentes partes do planeta, diferenças religiosas, étnicas, culturais e políticas ainda são utilizadas como justificativa para discriminar, excluir e até mesmo tirar vidas.
Nesse cenário, falar sobre gentileza pode parecer algo pequeno diante de problemas tão complexos. Mas não é. Ser gentil, hoje, é também uma forma de resistência à indiferença e à desumanização. É reconhecer que, apesar das diferenças de origem, crença, opinião ou condição social, compartilhamos uma mesma humanidade.
No Brasil, a intolerância também tem ocupado espaços preocupantes. A polarização política, por exemplo, ultrapassa muitas vezes o campo das ideias e invade as relações pessoais e profissionais. Há situações em que trabalhadores são constrangidos por suas escolhas eleitorais e estabelecimentos comerciais se tornam alvo de campanhas de boicote motivadas pelas convicções políticas de seus proprietários. Discordar faz parte da democracia. Ameaçar a subsistência de alguém ou tentar silenciar quem pensa diferente, não.
Gentileza não significa concordar com tudo, permanecer em silêncio diante de injustiças ou abrir mão das próprias convicções. Significa compreender que o respeito não pode ser condicionado à concordância. Podemos defender ideias com firmeza sem desqualificar pessoas, debater sem humilhar e manifestar nossas diferenças sem transformar o outro em inimigo.
Essa compreensão precisa ser cultivada desde a infância. Como escritora e editora de livros infantis, acredito muito no poder das histórias para ampliar horizontes e despertar a empatia. Quando uma criança conhece personagens de outras culturas, acompanha realidades diferentes da sua e se emociona com desafios vividos por outras pessoas, ela tem a oportunidade de exercitar o olhar para além do próprio universo.
A literatura nos ensina que existem muitas maneiras de viver, pensar e sentir. E que conhecer o outro não diminui quem somos. Pelo contrário: amplia nossa compreensão do mundo.
A gentileza também está nas atitudes cotidianas: ouvir com atenção, oferecer ajuda, respeitar o tempo do outro, acolher quem chega de uma realidade diferente e não julgar alguém apenas por suas escolhas. São gestos que parecem simples, mas ajudam a construir ambientes mais seguros, solidários e humanos.
Neste mês em que se celebra o Dia Mundial da Gentileza (13/11), vale lembrar que não precisamos pensar igual para conviver, nem compartilhar as mesmas crenças para respeitar. Em um mundo que tantas vezes estimula divisões, escolher o diálogo, a empatia e o respeito é um gesto de coragem.
Uma sociedade mais gentil começa na maneira como tratamos as pessoas que cruzam nosso caminho. Afinal, a mudança que queremos ver no mundo começa com cada um de nós. Começa com você.
*Isa Colli é jornalista e escritora
