Trânsito na Linha VermelhaDivulgação
Falsos vendedores ambulantes aproveitam trânsito lento para assaltar em vias expressas do Rio
Índices de assalto vêm crescendo em 2022, se comparados ao ano anterior
Rio - Assalto a automóveis durante engarrafamento em vias expressas do Rio não é necessariamente uma novidade no cotidiano carioca. Criminosos desafiam as autoridades passando-se por vendedores ambulantes para cometer delitos, muitas vezes, armados. Em áreas que compreendem duas das principais autopistas da capital, índice de roubos de janeiro a outubro de 2022 cresceu quase 30%, se comparado ao mesmo período do ano passado.
Julia Azevedo, médica de 27 anos, foi uma das mais recentes vítimas da realidade vivida no Rio. Ela contou que estava dentro de um carro de aplicativo a caminho do trabalho, quando, em meio a muita chuva, notou a aproximação de um pretenso vendedor ambulante já com a arma em punho, batendo no vidro do carro.
"Estava na Avenida Brasil, altura da Fiocruz, em Manguinhos, em um engarrafamento enorme. Por conta da chuva, o carro estava todo fechado. Um homem, que tudo levava a crer, vendia sacos de pipoca doce no trânsito, se aproximou e já bateu com a arma no lado do motorista, mandando que ele abaixasse o vidro. Em seguida, ele mandou que eu passasse o celular, que eu assim fiz. Quando ele ia pegar o do uber, o trânsito andou um pouco e motorista arrancou com o carro. Me deitei no banco, achando que ele pudesse atirar na gente. Foi horrível. São coisas difíceis de esquecer", desabafou.
De acordo com os dados do Instituto de Segurança Pública, o ISP, na região onde Julia foi assaltada, os roubos a celulares cresceram 19% de janeiro a outubro deste ano, se comparado ao mesmo período do ano passado. Só em agosto, foram informados à Polícia Civil 65 crimes dessa natureza, o maior número para o mês nos últimos cinco anos.
Na região do Caju, bairro pelo qual passam tanto a Linha Vermelha quanto a Avenida Brasil, os número são ainda maiores. De janeiro a outubro, o índice de roubos aumentou 27%, se comparado ao mesmo período de 2021.
Outra vítima, essa uma arquiteta de 25 anos que pediu que seu nome não fosse divulgado, relatou que viveu momentos bem angustiantes ao lado de sua mãe no trânsito da Linha Vermelha, sentido Ilha, na altura do Complexo da Maré, quase em frente ao 22º batalhão da PM (Bonsucesso), no começo de março desse ano.
"Por volta das 18h30, bem o horário em que geralmente fica sempre tudo super engarrafado por ali mesmo, estava dirigindo, voltando para casa naquele trânsito "anda e para", bem lento, quando notei que passou por mim o que parecia ser um vendedor ambulante. Ele se aproximou do carro, chegou na minha janela, batendo no vidro e mandando abaixar. Confesso que demorei um pouco até que ele levantou a camisa e pegou uma arma. Finalmente, abaixei o vidro com ele gritando, mandando passar a bolsa com tudo, celular, documentos, além do celular da minha mãe - que estava no carona", relatou.
Major da Reserva da Polícia Militar e pesquisador do Laboratório de Estudos Políticos de Defesa e Segurança Pública da UERJ e conselheiro do Fogo Cruzado, Luiz Alexandre da Costa afirmou que esse tipo de prática é, diferentemente de um roubo de rua comum, algo bem planejado para ter facilidade na ação, ponto que as autoridades precisam ficar atentas para coibir. Sobretudo, esses que se passam por trabalhadores honestos.
"Os ambulantes em sinais e nos engarrafamentos no Rio de Janeiro são um costume antigo da cidade. Em sua maioria absoluta, esses trabalhadores são pessoas que apenas tentam ganhar a vida. Entretanto, sabendo disso, os criminosos vêm se aproveitando dessa naturalidade desse tipo de comércio cotidiano, bem como na confiança que os cariocas têm nesses trabalhadores, para facilitar a prática de assaltos", disse ele, que completou. "Sabendo que são locais previamente escolhidos pela logística de tráfego, a Polícia Militar pode mapear, através dos dados da prefeitura do Rio, os locais e horários de incidências dos engarrafamentos diários e adequar o policiamento ostensivo para suas cercanias, visando minimizar esses assaltos. Ao mesmo tempo, a Polícia Civil deve, através do cruzamento de dados dos registros de ocorrências de roubos nas vias públicas, analisar a repetição desses crimes, investigar e prender esses criminosos", completou.
Procurada, a Polícia Militar informou que neste ano de 2022, o Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) efetuou 246 prisões e apreendeu 14 adolescentes durante as ações ostensivas em sua área de policiamento. De acordo com o comando da unidade, a respeito dos relatos de suposto aumento, no número de roubos a transeuntes nas vias expressas, supostamente cometidos por criminosos disfarçados de vendedores ambulantes, foi realizada análise criminal voltada para a modalidade citada, restando apurado não ter ocorrido aumento do número de registros, tampouco denúncias recentes acerca deste fato.
O Comando do BPVE afirmou que tem intensificado o policiamento nos horários de maior incidência criminal, principalmente com a utilização de Motopatrulhas e Policiamento Transportado em Ônibus Urbano. A PM ressaltou ainda a importância de que a população colabore realizando denúncias - pelo Disque-Denúncia (21) 2253-1177 - ou, para casos urgentes, faça o acionamento através da nossa Central 190 para que as medidas imediatas cabíveis possam ser tomadas. Os registros em delegacias da Polícia Civil também são essenciais para que procedimentos investigativos sejam iniciados.

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