A vida é mesmo assim: muitos de nós estamos em sincronias diferentes, vivendo momentos distintos. Vale para rotinas e para emoçõesPaulo Márcio

Acordei cedo na manhã do primeiro dia deste novo ano. Havia colocado o relógio para despertar às 7h e até tentei prolongar o sono por mais alguns minutos, mas logo tive que levantar da cama. Estava em Rio das Ostras, na Região dos Lagos, onde havia curtido o Réveillon com a minha família, e tinha passagem de ônibus comprada para voltar ao Rio de Janeiro para chegar a tempo de trabalhar no plantão no jornal.
Todos na casa ainda dormiam. Arrumei as minhas coisas, tomei um café rapidamente e pedi um carro no aplicativo para me levar até a rodoviária da cidade. Enquanto aguardava na sala, vi pela janela um rapaz fazendo sua corrida matinal do outro lado da rua. O motorista não demorou a chegar e logo me desejou um feliz ano novo. Puxei papo, comentando que esperava que o trânsito estivesse tranquilo na estrada até a capital. E ele completou: "Vai estar, sim. Pelas corridas que estão sendo solicitadas aqui no aplicativo em Rio das Ostras, muita gente ainda está voltando das festas do Réveillon".
A vida é mesmo assim: muitos de nós estamos em sincronias diferentes, vivendo momentos distintos. Vale para rotinas e para emoções. Por isso entendo os relatos de quem não se animou com o clima de alegria que tomava conta do fim de ano. Sei que há quem ache especialmente difícil comemorar o Natal por ter perdido alguém muito especial. Entendo também quem não tenha compartilhado o clima de euforia do Réveillon. Afinal, todos nós temos um calendário único. A nossa esperança não renasce necessariamente quando o relógio anuncia a chegada de 1º de janeiro. Pode ser que ela reapareça num dia comum para outras pessoas, mas que se transforma na nossa virada particular na vida.
Pensando em tudo isso, desembarquei na rodoviária de Rio das Ostras com tempo de sobra para esperar o ônibus que me levaria ao Rio. Reparei nos garis varrendo as ruas e removendo o lixo da farra da noite anterior. E também no passageiro que chegou ao terminal puxando a sua mala de rodinhas e carregando um violão. Fiquei pensando em quantas canções haviam sido entoadas por aquele instrumento, agora silenciado, à espera de um novo rumo.
Já na estrada, sem nenhum engarrafamento, admirei o céu azul, cheio de nuvens. Era uma manhã ensolarada, numa bela volta para casa. Na Rodoviária do Rio, o vaivém constante de pessoas, com os seus trajetos bem particulares, voltou aos meus pensamentos. No meio de tanta gente, relembrei que há muitos anos eu esperava um ônibus ali mesmo, em direção à Rio das Ostras, numa época de Carnaval. A vida parecia ser uma folia para muita gente nas ruas, mas não para mim, que vivia um momento sem brilho.
Viajando por tantas cenas e lembranças, iniciei o ano reafirmando que precisamos respeitar os tempos de cada um. Já em casa, em Caxias, aproveitei para tirar do armário o calendário que havia ganho de uma grande amiga, ainda em 2022. Era a hora de ele ficar visível, me mostrando os dias deste ano novo. Lindamente, percebi que uma de suas primeiras páginas trazia uma citação de Vinicius de Moraes: "Amar é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto". Não sei em que tempo isso acontecerá para cada um de nós, mas desejo que 2023 nos reserve a proximidade de quem amamos.