Campus 436, da Unirio na Urca, foi reaberto após dois dias fechados por conta das ameças do alunoArquivo/Beatriz Perez/Agência O DIA
Um aluno da universidade, que preferiu não se identificar, alegou que foi diretamente atacado pelo homem por diversas vezes. Segundo ele, por conta de um comentário nas redes sociais sobre o homem, ele passou a postar vídeos falando sobre ele contendo ameaças aos dois, além de perseguições e vazamentos de dados.
"Eu cheguei a fechar minha conta em uma rede social. Tenho mais de 50 contas bloqueadas porque fiquei extremamente neurótico. Qualquer conta que me seguia, que não era de alguém que conhecia, eu bloqueava. Tinham uns perfis estranhos que ficavam vendo meus stories. Eu bloqueava todos todos", disse.
Em seu relato, o aluno ainda contou que desenvolveu problemas psicológicos devido ao que vinha sofrendo. "E com isso, depois de todo esse processo, eu desenvolvi ataques de ansiedade. Eu já sonhei com ele diversas vezes, e é sempre alguma coisa envolvendo perseguição, ataque, morte", desabafou o universitário.
Por conta da volta de seu agressor, o aluno, que está em seu último período, alegou que pretende deixar de participar de todas as aulas e só vai até o campus acompanhado por conta do medo que desenvolveu devido ao trauma.
Na época, o aluno havia feito ameaças de massacre com uso de armas na unidade e as aulas chegaram a ser suspensas. Sob os pseudônimos "Perestroika" e "Lifesucks", o aluno usava das redes sociais para publicar vídeos onde amedrontava os demais alunos da universidade e dizia mensagens de ódio contra os mesmos. Em fóruns de discussão na internet, Perestroika insinuava que ia fuzilar toda a UniRio.
O estudante se autodenomina um "incel", ou seja, um celibatário involuntário. O grupo é formado por homens solitários que se reúnem em fóruns na internet. Em comum, está a rejeição por mulheres e homens sexualmente ativos e o teor do discurso de ódio e misoginia.
Segundo uma das testemunhas, apesar de seu canal no YouTube estar trancado, seus vídeos ainda podem ser encontrados em outras contas na redes social. A suspeita é de que fãs do homem tenham republicado essas imagens.
Antes da sua volta, segundo ele, havia sido combinado entre os professores e a reitoria que o aluno participaria das aulas a distância e que, para ir até o campus, ele precisaria avisar com antecedência por e-mail sobre a sua ida e a motivação. Porém, nesta semana, o estudante apareceu na UniRio sem aviso prévio.
De acordo com uma outra testemunha, que também não quis se identificar, o agressor mostrou ainda estar instável. "Nessa reunião ele estava presente e demonstrou para mim e para muitas outras pessoas que ele tem problema em controlar suas emoções. Estressado não é a melhor palavra, mas ele estava emocionante instável. Repetiu umas 20 vezes gritando alto que ele era um babaca", contou.
Segundo o aluno, que também chegou a ser ameaçado pelo homem, a insegurança tomou conta do campus. Para ele, a UniRio foi irresponsável em permitir o retorno.
"Eu acho que as duas principais palavras para tudo aqui é leviano e insegurança. Ele passou por um processo interno cheio de falhas que parece que foi tratado como uma mera questão administrativa, como se sei lá, ele tivesse quebrado algo de um dos campus. Só que não foi isso que aconteceu, uma ameaça de morte deveria ser levada mais a sério e me parece que a UniRio está apostando na sorte que a volta dele não oferece nenhum risco. A volta dele bota em risco qualquer aluno da UniRio, porque na época ele disse exatamente 'irei fuzilar esses cirandeiros'".
Uma terceira aluna relatou ao Dia que a UniRio não acompanhou o processo de tratamento psicológico do aluno e apenas um laudo foi o suficiente para validar o retorno ao campus.
"Durante todo esse período de suspensão a UniRio não acompanhou o aluno de perto e nem o seu tratamento. Para ele voltar bastou ele levar um laudo fornecido por um psiquiatra da escolha dele próprio informando aptidão para retornar as aulas, comprovação de que estava se tratando psiquicamente que ele mesmo fornecia também e uma termo auto declarativo informando que ele se manteria longe da internet e das práticas que ele tinha no canal dele no youtube e outras redes", disse.
E ainda completou. "Estou desolada, eu só quero me formar, estudar em uma federal além de um sonho é muito difícil. E tenho vontade de desistir. São tantos casos desse tipo de atrocidade que eu nao quero pagar pra ver. A faculdade esta tratando com muito descaso. Nao me sinto acolhida, informada e protegida".
As testemunhas disseram que, após o afastamento do aluno, a UniRio nunca realizou uma comunicação oficial sobre a real situação e, por conta disso, muitos acreditavam que o autor das ameaças havia sido expulso.
"Eu suspeitava que ele iria voltar, mas que devia ficar pelo menos uns dois anos afastado, porque escutei de um dos professores envolvidos que eles queriam esperar os alunos irem se formando. Em dois períodos apenas um dos alunos envolvidos se formou e todo o resto do curso que sabia do ocorrido ainda está lá", desabafou.
Procurada, a UniRio informou que em junho de 2022 foi aberto um processo disciplinar apuratório, que resultou no afastamento do discente por dois semestres letivos (2022.1 e 2022.2) e, para o retorno às aulas, "após o cumprimento da penalidade, foi exigida a apresentação dos seguintes documentos: Termo de Compromisso do discente de se manter afastado da produção e difusão de conteúdos similares aos que deram origem ao processo até a conclusão do curso de graduação; Laudo Psiquiátrico atestando que o discente tem condições plenas de retorno às atividades acadêmicas; Termo de Compromisso do discente em manter acompanhamento psicológico regular até a conclusão do curso".




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