Médica é investigada pela morte de advogada após procedimento estéticoReprodução

Rio - A médica Geysa Leal Corrêa prestou depoimento, nesta quarta-feira (27), na 9ª DP (Catete), na Zona Sul, na investigação da morte da advogada Silvia de Oliveira Martins, de 40 anos, após um procedimento cirúrgico de lipoaspiração. A cirurgiã esteve na delegacia acompanhada do advogado.
Silvia deu entrada na clínica para fazer a lipoaspiração no dia 15 deste mês. Recebeu alta na manhã do sábado (16), e voltou para casa, mas começou a sentir fortes dores. Por volta das 14h30, a advogada foi levada para o Hospital Oeste d'Or, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, onde ficou internada até o domingo (17), quando teve a morte confirmada. Familiares da advogada fizeram um boletim de ocorrência contra a profissional na 42ª DP (Recreio dos Bandeirantes), na quarta-feira passada (20), para dar início à investigação sobre o caso.

Em uma postagem nas redes sociais, nesta segunda-feira (25), Geysa alegou que a paciente estava se sentindo bem após a lipoaspiração e que se tratou de um ''fato médico'' sem relação direta com a cirurgia, que ocorreu sem complicações. Ainda de acordo com a médica, Silvia apresentou um quadro de embolia pulmonar, inerente à cirurgia realizada.
Procurado pelo DIA, o advogado da médica, Lymark Kamaroff, lamentou a morte da paciente e, em nota, afirmou que não há nexo de causalidade entre a intercorrência sofrida pela paciente e atuação de Geysa, "que sempre agiu diligentemente, seguindo os padrões preconizado pela boa técnica, mas que infelizmente intercorrências cirúrgicas podem ocorrer". O defensor disse ainda que todas as pacientes assinam um termo de consentimento livre e esclarecido para a possibilidade de ocorrer um evento adverso, que pode ser uma complicação ou intercorrência. Ainda de acordo com a defesa, "esta foi a terceira intervenção cirúrgica feita por Silvia com Geysa. A primeira foi em 2019 e outra em 2020", informou o comunicado. 
Condenação por outro procedimento
Geysa Leal Corrêa foi condenada em 2022 a dois anos de prisão por homicídio culposo pela morte da pedagoga Adriana Ferreira Capitão Pinto, de 41 anos, ocorrida em 2018, após uma lipoaspiração feita em uma clínica em Niterói, na Região Metropolitana do Rio.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), a médica, que possuía especialidade em otorrinolaringologia na época, "deixou de observar o dever objetivo de cuidado que lhe era exigível e, agindo com inobservância das regras técnicas de profissão, com manifesta imperícia e negligência, deu causa à morte de Adriana".
Em 2022, a juíza Juliana Bessa Ferraz Krykhtine condenou a médica a dois anos de prisão, mas substituiu a sua detenção com duas penas restritivas de direito, sendo uma com prestação de serviços à comunidade de uma hora por dia de condenação, e outra pelo pagamento de um salário-mínimo vigente à época da morte. A médica ainda pode recorrer junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Em relação a esse processo, Geysa se justificou dizendo que Silvia sabia do que tinha acontecido porque ela era uma advogada renomada e com experiência. Inclusive, a médica revelou que já até tirou dúvidas na parte jurídica com ela.
"Eu venho aqui questionar vocês em algumas coisas sobre os absurdos que estão me atacando, que ao meu ver estão ofendendo a memória e a capacidade intelectual da Silvia, que era uma excelente advogada. Uma advogada brilhante, de muito sucesso. Vocês acham que ela não sabia dos meus processos? Sinceramente, vocês acham que ela nunca leu, que ela não estudou caso a caso, vocês realmente acham isso? Com certeza, vocês conheciam ela muito melhor do que eu. Nós nos conhecemos desde 2019, quando eu fiz o primeiro procedimento nela. Desde então, volta e meia a gente se falava. Fizemos o segundo em 2020 e o último agora, mas por vários momentos nós conversávamos. Não éramos grandes amigas, mas tínhamos uma relação muito bonita de respeito, admiração e confiança mútuas. Por várias vezes eu tirei dúvidas na parte jurídica com ela. Então, eu pergunto, vocês sinceramente acham que ela não leu isso?", questionou.
Investigação
Antes de registrar o caso na 42ª DP, Pedro Cayo Costa, filho da advogada, explicou que a família resolveu denunciar a médica porque quer Justiça pelo o que aconteceu, além de poder saber mais detalhes do ocorrido.
"A minha família só quer Justiça por tudo que aconteceu. A gente não sabe o caso concreto de tudo, mas a minha mãe chegou em casa bem e fez a cirurgia bem. Nesse momento, só queremos Justiça mesmo. Saber sobre o caso e de início é isso", explicou.
A empresária Camila Antoni, irmã da advogada, que a acompanhou até a clínica para fazer a cirurgia, destacou que elas não sabiam que a lipoaspiração seria realizada no local, já que havia um aviso que os procedimentos eram realizados em um hospital.
"Quando a gente chega lá, você vê um consultório bacana. Tem escrito lá que vai ser feito no hospital e é cobrado o valor. Acontece que, quando você chega lá, você já fez os exames, já pagou, tem hospital do lado, te dão o endereço, você já fez tudo, mas dizem que vai ser na clínica porque tem todos os equipamentos que tem no hospital. Então, a gente acredita que é o melhor. Eu acredito que a Sílvia não teria feito se não acreditasse que era o melhor", explicou.
Depois que sua irmã morreu, Camila soube que Geysa já havia sido condenada pela morte de uma mulher em decorrência de uma outra lipoaspiração. Por isso, a família resolveu levar o caso adiante e registrar uma queixa contra a médica.
"Na verdade, ela não deveria estar exercendo porque ela já tem mortes. Ela tem um monte de coisa. A pergunta que eu me faço é: por que ela está exercendo, se ela já foi condenada? Isso que eu queria entender. Por que?', finalizou.
A declaração de óbito de Sílvia indicou que a causa da morte foi um "choque hemorrágico, devido a um tromboembolismo pulmonar, em razão de lipoaspiração recente". A advogada foi sepultada na tarde desta segunda-feira (18), no Cemitério Jardim da Saudade, em Paciência, na Zona Oeste do Rio.
Além da investigação, o Conselho Regional de Medicina (Cremerj) abriu uma sindicância contra Geysa. Caso as suspeitas de irregularidades sejam confirmadas, será aberto um processo ético-profissional contra a médica.