Ana Luiza Teodoro conseguiu a nota máxima no Enem aos 18 anos Reprodução/Arquivo Pessoal
Aluna nota 1000 no Enem 2023 fala sobre a rotina de preparação para a prova
Ana Luiza Teodoro é moradora de Vila Isabel e participou do exame pela terceira vez, a primeira sem ser como treineira
Os resultados do Enem foram divulgados na terça-feira, 16. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela prova, 60 alunos conseguiram a sonhada nota 1000 na redação. Sete deles do Rio de Janeiro. Moradora de Vila Isabel, Ana Luiza Teodoro Coutinho Loureiro está entre os que conseguiram alcançar a pontuação máxima.
Aos 18 anos, ela concluiu o Ensino Médio no colégio pH e participou da prova pela terceira vez, a primeira sem ser como "treineira". Para O DIA, Ana Luiza conta sobre como foi a rotina para chegar na nota perfeita e ficar mais próxima de realizar o sonho de cursar Direito na UFRJ.
A primeira dica de Ana Luíza se refere à preparação. Ela explica que, desde a primeira experiência no Enem, ela exercita a escrita com vistas à prova de redação. Para tanto, a futura caloura de Direito lê frequentemente e sugere ver ao menos 1 livro por mês, mas reitera que não há necessidade de se pressionar para seguir uma meta. Ela pede que os candidatos sigam as próprias rotinas, não forcem além do próprio limite e façam de uma forma que seja prezerora.
Entre seus autores favoritos estão diversos escritores brasileiros como Clarice Lispector, Jorge Amado, Machcado de Assis e Djamila Ribeiro. "Também usei as recomendações que os professores passavam nas aulas de redação, literatura, filosofia e sociologia", pontua Ana.
Ana Luiza explica que seguiu o plano de estudo do escola. Trabalhou as muitas atividades do curso durante a semana e depois passou a fazer uma redação por semana. Ela também fez os simulados durante os fins de semana.
A estudante aponta que precisou abdicar um pouco da vida social para focar 100% na prova. Na maior parte da semana, seu cotidiano se resumia em chegar à escola antes das 7h, ir embora somente às 17h, as vezes 18h. Aos sábados e domingos, mantinha o ritmo de estudo.
"O cansaço é enorme. Fiquei mais ausente, inclusive com a minha família. Mesmo quando podia descansar em casa, minha mente não me deixava relaxar completamente, então estava sempre estudando um pouco, pesquisando repertórios sugeridos pelos meus professores", explica.
Com a leitura e a escrita em dia, o próximo ponto é saber construir o tema da redação. Este ano, o Inep optou por trabalhar a questão "Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. Para Ana Luíza, foi uma surpresa. "A frase tema era enorme", comenta.
Para construir o texto, usou as filósofas Silvia Federeci e Simone de Beauvoir, mas foi a própria mãe a maior inspiração pessoal para trabalhar o tópico da prova. No fim, como mulher, afirma que o tema seja de grande importância, mas lamentou que ainda seja muito desvalorizdo no Brasil.
"Sempre estudei sobre feminismo e li sobre esse assunto em 'O patriarcado do salário', de Silvia Federeci. Então, talvez por isso, a redação fluiu bem. Citei também uma filósofa que fala sobre a questão de ser mulher, que é a Simone de Beauvoir, com sua ilustre frase "Não se nasce mulher, torna-se". Minha maior inspiração, com certeza, foi minha mãe! Dona de casa, sempre cuidou de mim e do meu irmão, fazendo o possível e o impossível. Claro que naquele momento eu estava muito nervosa, mas escrever, principalmente sobre esse tema que gosto tanto, foi muito bom", explica Ana Luíza.
Além da importância de saber trabalhar o assunto principal, o aluno precisa ficar atento à construção do texto. O Inep avalia como imprescindível cinco competências: conformidade do texto com a norma culta da língua escrita (escrita e pontuação correta, concordância verbal), estruturação adequada do tema, coerência das ideias no texto, uso dos elementos de coesão (os conectivos do texto) e a proposta de intervenção (uma sugestão de solução dividida entre ação, agente, modo/meio, efeito e detalhamento de um desses elementos anteriores).
Aluna nota 1000 e "apaixonada" pela escrita, a estudante explica o passo a passo para atingir o tão almejado resultado. "Meu texto seguiu o padrão: quatro parágrafos. Primeiro a introdução, dois parágrafos argumentativos e a conclusão. Minha estratégia é olhar o tema e fazer um brainstorm. Só depois de fazer algumas questões que realmente vou escrever o texto. Organizei no rascunho cada parágrafo com minhas ideias centrais e os repertórios que queria usar", afirma.
"Na introdução citei Clarice, com seu livro de contos 'Laços de Família', em que um dos contos aborda a história de Ana (minha xará) que vive cuidando de sua família. No desenvolvimento, falei um pouco sobre como nossas vivências como mulheres são totalmente moldadas pela sociedade, o que embasei com a frase de Beauvoir, além de mencionar que o trabalho de cuidado é menosprezado economicamente, usando '1A sociedade do cansaço', de Byung Chul Han", explica.
"Na conclusão, falei de como precisamos incluir nas escolas o ensino sobre empoderamento feminino e também de um reajuste salarial, para que as mulheres pudessem alcançar independência financeira. Por último, retomei minha introdução, dizendo que todas as 'Anas' do Brasil devem ser valorizadas e prestigiadas", conclui.
*Matéria do estagiário Rodrigo Glejzer sob supervisão de Marlúcio Luna



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