Sargento Leandro Silva de Jesus Sant'Anna recebeu prótese no fim do segundo semestre de 2024Divulgação/Polícia Militar

Rio - Um policial militar reformado foi o primeiro da corporação a receber uma prótese elétrica de membros superiores. O sargento Leandro Silva de Jesus Sant'Anna, de 42 anos, sofreu uma amputação do braço direito, depois de ser atingido por um tiro de fuzil, em serviço. No ano passado, a vida do agente voltou a mudar, com a aquisição do equipamento.
Em novembro de 2019, o PM atuava em uma operação no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana, quando a equipe viu criminosos armados com fuzis e pistolas e houve confronto. Leandro acabou sendo atingido por cinco tiros de fuzil AK-47, que acertaram o braço e outras partes do corpo. 
Na ocasião, ele foi socorrido por colegas e chegou a passar por uma cirurgia no Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), no Colubandê, mas teve o braço direito amputado. "Eu fiquei com aquela tristeza, mas olhei de outra forma, porque da maneira que os tiros pegaram na lateral do meu corpo quando eu estava rastejando, porque ele atirou para me matar, eu vi que o braço não foi nada", afirmou o policial, promovido por bravura à patente de terceiro sargento e reformado.
"Foi muito boa a minha recuperação, psicologicamente falando, eu nem acreditava que eu seria tão forte, me surpreendi (...) Eu não fiquei sentindo aquela dor fantasma, que realmente existe, só tive no início. Acho que eu desapeguei dessa dor, por não ter ficado apegado à perda do braço. Eu aceitei e vivo tranquilo com isso, jogo bola, corro, faço musculação, dirijo. Eu consegui me superar bem e minha vida tem sido assim, cada dia apreendendo novas coisas, novos desafios". 
Prótese custou R$ 380 mil e trouxe mudança na autoestima
O sargento conta que apesar de ter se adaptado bem, tinha vontade de receber o equipamento, por motivos estéticos, de postura e para conseguir voltar a realizar alguns movimentos. Ele passou por um tratamento no Centro de Fisiatria e Reabilitação da PM, em Olaria, na Zona Norte, e no fim do segundo semestre de 2024, recebeu uma prótese elétrica de membro superior de braço direito, avaliada em mais de R$ 380 mil.
A peça é totalmente feita de fibra de carbono e foi adquirida com recursos do Fundo de Saúde da Polícia Militar - auxílio médico-hospitalar pago com desconto do salário dos policiais. Segundo a PM, a prótese funciona por meio de eletrodos conectados ao músculo do braço direito do militar, que respondem às contrações feitas pela musculatura dele para realizar os mesmos movimentos do braço e da mão humana, como dobrar, enroscar e apertar.
O equipamento foi adquirido após uma licitação que durou cerca de um ano e estabelecia que a fornecedora do material também deveria realizar parte do treinamento de adaptação do sargento. O processo teve início em meados de 2023 e terminou ao final de 2024, quando após seis meses de treinamento, o policial recebeu a prótese de braço.
"Minha meta é melhorar, praticar movimentos mais complexos, até mesmo segurar um lápis e escrever. É um treinamento que ainda vou fazer, porque ainda é recente. Por mais que já tenha alguns meses (com a prótese), os movimentos são complexos e eu tenho que treinar mais para cada dias mais melhorar", disse o sargento. Para ele, usar a prótese mudou sua vida, especialmente em relação à autoestima. 
"Mudou muito a minha vida. Às vezes a pessoa olha, criança mesmo, pergunta, fica com medo. A minha filha era muito pequena na época e no primeiro momento teve aquela rejeição, mas no mesmo dia já se aproximou, fez carinho. Mas, assim como ela, outras crianças ficam receosas quando estou sem a prótese. Quando estou, elas já ficam curiosas, querem ver, falam que é braço de robô. Isso é muito gratificante". 
De acordo com o militar, inicialmente ele teve o pedido por uma prótese elétrica recusada e havia sido disponibilizada uma peça com funções mais estéticas. Até que ele conheceu a Associação Somos Todos Sangue Azul, e por meio da vice-presidente Mariana Medalha, deu início ao processo de aquisição. Ela procurou a diretora-geral de saúde da PM, que chegou a acompanhar Leandro em consulta, e após as etapas burocráticas, conseguiu aprovação para a compra do equipamento. 
O sargento foi o primeiro PM do Rio a receber a prótese. "A minha autoestima é outra, a postura é outra, os olhares são outros. Isso é realmente algo que não tem preço. Infelizmente, nem todos têm essa oportunidade, eu tenho colegas piores, acamados, que se foram, então, eu realmente sou um privilegiado. Eu só agradeço a todas as pessoas envolvidas e a Deus". 
PM investe R$ 1,2 milhão em próteses
O protése de Leandro foi entregue durante uma cerimônia com a presença do Secretário de Estado de Polícia Militar, Coronel Marcelo de Menezes Nogueira. "Para nós é muito importante prestar esse serviço aos nossos policiais vitimados pela violência urbana que atinge a todas as camadas da nossa sociedade. Vamos sempre lutar para dar as melhores condições e manter a dignidade humana dos nossos policiais militares", afirmou o secretário, na ocasião. 
De acordo com a Polícia Militar, ao longo de 2024, a corporação investiu mais de R$ 1,2 milhão na aquisição de próteses, sendo 34 delas de perna (transfemural e transtibial) e uma de braço (transumeral), destinadas à policiais militares e seus dependentes.