Rio - O corpo do bicheiro José Caruzzo Escafura, o Piruinha, foi velado no início desta quinta-feira (23) no Sambola Hall, casa de shows da qual ele havia sido proprietário, no bairro da Abolição, Zona Norte. O contraventor morreu nesta quarta-feira (22), aos 95 anos - ele era o mais velho integrante da antiga cúpula do Jogo do Bicho na cidade. O sepultamento foi às 16h, no Cemitério de Inhaúma.
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Familiares, amigos do mundo da contravenção e sambistas se reuniram para prestar as última homenagens a Piruinha. Júnior Escafura, um dos netos do bicheiro e vice-presidente da Portela, disse que mais de mil pessoas participaram da cerimônia ao longo do dia. "Olha quanta gente veio prestar a última homenagem. Isso conforta um pouco a família, saber que ele viveu 95 anos cercado de alegria, felicidade e muito amor", afirmou.
Ao redor do caixão, dentre mais de 20 coroas de flores, havia também uma gaiola com Fato Novo, a calopsita de estimação, e bandeiras da Unidos do Cabuçu, Império Serrano, Mangueira, Portela e Salgueiro sobre o caixão.
O neto Júnior relatou os últimos dias do avô: "Ele chegou a ser internado, mas foi liberado para voltar para casa. Infelizmente, passou mal e não deu tempo de socorrer. Ele acabou falecendo."
Outro neto presente, José Luiz Escafura, vice-presidente de carnaval do Império Serrano, encontrou conforto na longa vida do avô: "Ele descansou. Estava com 95 anos, viveu muito, curtiu muito. Apesar dos problemas de saúde recentes, ele partiu em paz, sem sofrimento. Era uma pessoa boa e não merecia sofrer."
Artistas marcam presença no velório
O cantor Xande de Pilares foi ao velório de Piruinha, com quem teve uma relação bem próxima, a quem ele chamou de 'pai'.
"Minha relação com o seu Zé era de pai, de amor. Ele entrou no lugar do pai que eu perdi. Esse cara foi amigo de todo mundo aqui, do Cachambi a Cascadura, de Madureira à Tijuca, do Salgueiro à Portela. Ele foi sensacional, um dos maiores exemplos que o samba tem", disse o sambista, com a voz embargada.
"Uma vez, no Sambola, não me deixaram cantar. Mas ele pediu para que deixassem. E agora, antes do resultado do samba-enredo campeão, ele me abençoou e eu ganhei no Salgueiro e no Império Serrano. Ele sempre me pediu para manter o pé no chão. Por isso, estou aqui", completou.
Andrezinho, vocalista do grupo Molejo, também lembrou do contraventor no meio artístico: "Foi ele quem mais me ajudou na carreira. Me tirou de uma situação difícil após uma enchente em Realengo, me trouxe para Pilares, me deu emprego no Sambola e no River (clube em Pilares). Além disso, me ensinou muito. Vai fazer muita falta no samba. Sou eternamente grato."
Nilce Fran, coordenadora da ala das passistas da Portela e amiga da família, também lembrou com carinho do bicheiro. "Ele não dizia 'não'. Sempre acolhedor, dizia que o velório deveria ser no Sambola, para não dar trabalho a ninguém. São poucas pessoas como ele no mundo", afirmou.
Após orações, aplausos e uma breve roda de samba, o corpo de Piruinha foi levado para o Cemitério de Inhaúma, onde foi sepultado.
Quem foi Piruinha
Piruinha recebeu este apelido por causa de sua origem humilde, já que era chofer de transporte público e costumava conduzir peruas (carros com porta-malas espaçosos) nas ruas do Rio. Ele exerceu, por décadas, o domínio do Jogo do Bicho nos bairros de Madureira, Abolição, Cascadura, Maria da Graça, Piedade e Inhaúma, na Zona Norte.
Em 1993, Piruinha foi um dos 14 contraventores condenados por formação de quadrilha pela juíza Denise Frossard, da 14ª Vara Criminal. Paralelamente ao jogo, explorava outras atividades, como motéis na Zona Oeste e foi investigado por uma suposta ligação com uma quadrilha de abortos clandestinos.
Em 2024, ele foi absolvido da acusação de ser o mandante da morte de Natalino José do Nascimento Espínola, o Neto, que era dono de uma loja de carros e neto de Natal da Portela, patrono da escola de samba, por causa de uma dívida que tinha com contraventores da cidade. O crime ocorreu em julho de 2021, na Estrada Intendente Magalhães, na Vila Valqueire, Zona Oeste.
Herdeiro assassinado em 2017 e filha presa em 2024
Em junho de 2017, Piruinha - que tinha 19 filhos - sofreu um grande baque com o assassinato do filho Haylton Carlos Gomes Escafura, então com 37 anos. Ele estava na companhia de uma cabo da PM no Hotel Transamérica, na Barra da Tijuca, Zona Oeste, quando homens armados invadiram o quarto e abriram fogo. Haylton era considerado o herdeiro natural do pai nos negócios.
Haylton foi preso em 2012 por envolvimento com a máfia dos caça-níqueis do Rio. Ele foi foi condenado a 15 anos e quatro meses de prisão. Segundo investigações da Polícia Federal, Haylton lavava o dinheiro do jogo com a venda de carros de luxo.
Em 2024, a filha Monalliza Neves Escafura foi presa por extorsão e integrar organização criminosa. Ela, o pai, além de um policial militar, foram denunciados pelo envolvimento na morte de Natalino José do Nascimento Espínola, o Neto.
Atualmente, a família de Piruinha marca presença em duas tradicionais escolas de samba, ambas em Madureira. Um dos netos dele, Junior Escafura é o atual vice-presidente da Portela, além de secretário da Liesa. Junior é filho de Luis Carlos Escafura, que foi presidente da Portela entre 1994 e 1996. Outro neto, José Luiz Escafura, está no Império Serrano ocupando o cargo de vice-presidente de carnaval. Além disso, a viúva do bicheiro, Edclea Neves, integra o quadro de musas do Salgueiro.
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