Incêndio de grandes proporções atingiu a fábrica de óleo da Moove na Ilha do GovernadorDivulgação/Governo do Rio

Rio - Cerca de 280 mil litros de resíduos de óleo foram retirados da Baía de Guanabara até a noite de domingo (9), após um incêndio que atingiu a fábrica da Moove, na Ilha do Governador, na Zona Norte. Segundo a empresa, protocolos de segurança e controle socioambiental estão sendo realizados para minimizar os impactos na natureza. Apesar disso, especialistas ouvidos pelo DIA explicaram os riscos do impacto do vazamento no meio ambiente. 
Segundo o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), as equipes do setor de emergências realizam, desde sábado (8), o monitoramento do espelho d'água da Baía de Guanabara, na área do entorno da planta da fábrica. Além isso, o Inea usou cerca de 2 km de barreiras para conter o material. As equipes mobilizadas pelo Plano de Área da Baía de Guanabara estão atuando na contenção e recolhimento do resíduo, mantendo o cerco instalado, para que não haja a dispersão para outras áreas.
David Zee, professor de oceanografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), explicou ao DIA que provavelmente há um percentual razoável de óleo na Baía de Guanabara, além da contaminação atmosférica causada pelos gases que evaporam durante o processo do material no mar.
"São 280 mil litros, isso é muita coisa. Uma coisa é você receber essa quantidade de vez em quando, o que não é o caso da Baía de Guanabara, que recebe grande quantidade de óleo todo dia, então ela já está muito impactada. O processo do óleo no mar primeiro volatiza, que nem quando você vê o ar 'tremendo' no posto de gasolina. Então, há uma contaminação atmosférica. Já a parte que fica na água contém metais pesados e, com o passar do tempo, esse óleo vai depositar no fundo. Vai prejudicar os organismos bentônicos, como caranguejos e crustáceos. Sem falar na contaminação indireta que vai chegar até o homem. O pessoal deve ter sentido cheiro de gasolina, cheiro de queimado", comentou David.
O geógrafo marinho Eduardo Bulhões, professor e pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), contou que a explosão é um tipo de ocorrência classificada como desastre tecnológico.
"Nos estuários, como a Baía de Guanabara, a poluição por óleo é um grande problema, mesmo que ela já seja bastante poluída, pois adiciona mais produtos químicos nocivos na água e nos materiais que compõem o fundo. A circulação da água e dos poluentes na baía é influenciada por ventos, marés e chuvas e, a depender da combinação desses fatores, possibilita o rápido espalhamento da mancha de óleo. Isso pode alcançar e ameaçar diretamente os manguezais que são ecossistemas bem sensíveis, relevantes e de difícil recuperação", explicou.
"Pode gerar também prejuízos diretos para a pesca artesanal e para as atividades recreativas. Infelizmente, na maioria dos casos, há certas dúvidas quanto à eficácia das ações de resposta. Acidentes acontecem, mas, em casos como esse, os investimentos, os protocolos e o trabalho na prevenção certamente podem evitar ou minimizar esses impactos negativos citados", concluiu.
Júlio Cesar Wasserman, professor do Departamento de Análise Geoambiental da UFF, relembrou de um grande vazamento de óleo que afetou o Golfo do México, em 2010. Ele contou que, na ocasião, os Estados Unidos conseguiram retirar do mar uma parcela pequena do material.
"Com toda a estrutura que eles têm nos EUA, eles conseguiram recolher 6%. Se conseguiram recolher 280, provavelmente tem uma quantidade grande. Não vou dizer 2.800, mas uma quantidade grande. Esse volume de 280 mil litros de óleo é uma quantidade razoável, já capaz de causar bastante estrago. Seria importante saber que tipo de óleo vazou, porque tem alguns que tem uma quantidade maior de benzeno, uma mobilidade maior", analisou.
Wasserman também destacou que um dos principais problemas é a contaminação dos manguezais, que compõem uma importante função na natureza.
"Os manguezais têm um papel ecológico como berçário de peixes e crustáceos, é um elo extremamente importante na cadeia trófica da Baía de Guanabara. As árvores com aquelas raízes aéreas têm estruturas de respiração e se os poros forem impregnados, podem matar a árvore", ressaltou.
Em nota, a Moove afirmou que está seguindo protocolos de segurança e controle socioambiental com o objetivo de minimizar os impactos. "Desde as primeiras ações de combate, foram mobilizadas barreiras físicas e absorventes para proteção da Baía de Guanabara em caso de possível escoamento de produtos ou água de rescaldo utilizadas no combate ao incêndio. As medidas preventivas com barreiras de contenção aplicadas pela Moove protegem todo o perímetro. A companhia reforça que segue comprometida em minimizar todos os impactos possíveis, inclusive ao meio ambiente e ao entorno", comunicou.
A 37ª DP (Ilha do Governador), em ação conjunta com o Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), realizam uma perícia em uma fábrica, na Ilha do Governador. Os agentes vão ouvir testemunhas e analisar câmeras de segurança para apurar as causas do incêndio.
Mais de 116 bombeiros militares e agentes da Defesa Civil Estadual trabalharam no combate às chamas e no resfriamento das áreas próximas. A operação mobilizou cerca de 20 unidades operacionais e mais de 35 viaturas, incluindo escadas e plataformas mecânicas, além de drones com câmera térmica que auxiliaram no monitoramento das áreas mais quentes.
Quanto aos efeitos na atmosfera, o Inea informou que possui uma estação automática de qualidade do ar na Ilha do Governador e continuará monitorando a situação no local. De acordo com os resultados apurados, aplicará as sanções cabíveis.