Emilly e Rebecca foram mortas por um único tiro de fuzilRenan Areias/ Agência O Dia

Rio - Um ato realizado em frente ao Fórum de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, marcou mais um apelo por justiça para Emilly Victória, de 4 anos, e Rebecca Beatriz, de 7, mortas por uma bala perdida em 2020. A ação acontece na tarde desta terça-feira (11), poucas horas antes da audiência de instrução e julgamento do caso.
A família cobrou por justiça e o esclarecimento definitivo sobre a origem dos disparos que vitimaram as crianças. Emocionada, Renata Rodrigues, mãe de Rebecca, fez um apelo pelo desfecho do caso, após quatro anos de dor e incerteza.
"Eu acho uma injustiça, por a gente ser pobre, preto e de periferia estão tirando a vida dos nossos filhos! E está fincado para trás, impune. Estamos aqui reunidos para conseguir uma resposta. Minha expectativa hoje é que ocorra tudo bem, quero estar satisfeita com uma resposta certa [sobre de onde partiu o tiro]", desabafou. 
As meninas brincavam na porta de casa, na comunidade do Sapinho, em Duque de Caxias, ao lado das mães que conversavam, quando policiais militares tentaram abordar duas pessoas que estavam em uma motocicleta. Elas foram atingidas por um único tiro de fuzil.
"Duas crianças, estavam só brincando! Não pode mais criança brincar na rua? Tem que ficar presa dentro de casa? Que seja feita a justiça. Depois de quatro anos sem resposta, minha expectativa é isso, que seja feita a justiça", disse Alessandro dos Santos, pai da Emily Victória.
Tiro pode ter partido da arma de um PM
Em dezembro do ano passado, a Defensoria Pública do Rio de Janeiro pediu ao Ministério Público a reabertura do inquérito policial que apura as mortes. O pedido se baseia em novas provas técnicas obtidas com o apoio do Projeto Mirante e "busca corrigir graves inconsistências nas investigações iniciais, reforçando a hipótese de que o disparo fatal tenha partido de dentro de uma viatura policial". 
O documento aponta que o relatório original do Laudo de Reprodução Simulada falhou em analisar adequadamente a trajetória do disparo e considerou posicionamentos questionáveis das vítimas e da viatura.
Outra inconsistência está na análise balística. O projétil que atingiu as crianças é compatível com os fuzis utilizados pelos policiais presentes na viatura do 15º BPM (Duque de Caxias), mas o confronto balístico foi inconclusivo.
Também há questionamentos quanto aos dados de GPS. Registros do equipamento da viatura revelam que o veículo trafegava em baixa velocidade na área no momento do incidente, retornando ao local horas depois, sem justificativa plausível.
O relatório inclui análises detalhadas da trajetória potencial do disparo e posicionamento das vítimas, usando modelagem 3D baseada em imagens de satélite, fotografias e dados periciais. O documento conclui que o disparo poderia ter sido efetuado por policiais posicionados no lado direito do veículo, contestando os resultados do laudo oficial.
Investigações iniciais
O inquérito policial, arquivado em 2022, concluiu que os disparos foram efetuados pelos traficantes Leandro Santos Sabino, conhecido como Trem, e Lázaro da Silva Alves, o Mestre, que visavam à viatura, mas erraram e atingiram as crianças.
Essa tese foi amplamente contestada por familiares e testemunhas, que alegaram que o disparo partiu da viatura policial.
Além disso, documentos e depoimentos apontam falhas graves no controle e registro de armamentos usados pelos policiais, com erros nos livros de registro e ausência de dados sobre consumo de munição.