Policiais militares participaram da reprodução simulada da morte de Kathlen RomeuArquivo/Agência O Dia
Justiça absolve PMs acusados de fraude processual no caso Kathlen Romeu
Quatro dos cinco integrantes do Conselho Especial de Justiça, todos oficiais da PM, votaram pela inocência. Só juiz representante civil foi a favor da condenação
Rio - Cinco policiais militares acusados de falso testemunho e fraude processual no caso da morte de Kathlen Romeu foram absolvidos por maioria de votos no Tribunal de Justiça do Rio, nesta terça-feira (5). O julgamento, iniciado às 13h, foi conduzido pela Auditoria da Justiça Militar. O Ministério Público do Rio (MPRJ) vai recorrer da decisão.
De acordo com a denúncia do MP, os agentes Jeanderson Correia Sodré, Rodrigo Correia de Frias, Cláudio da Silva Scanfela, Marcos Felipe da Silva Salviano e Rafael Chaves de Oliveira alteraram a cena do crime. O caso foi analisado ao longo da tarde pelo Conselho Especial de Justiça, formado pelo juiz Leonardo Picanço e quatro oficiais da Polícia Militar. O juiz foi o único a votar pela condenação dos réus.
Após o anúncio da decisão, a mãe da jovem, Jacklline Lopes, criticou a decisão. "Esse é mais um tiro de fuzil que eu, meus familiares e amigos tomamos do estado. Estou decepcionada, ferida, mas não estou surpresa porque eu não poderia esperar menos de um tribunal corporativista que legitima essa barbaridade com os nossos filhos. É um tribunal da impunidade. Onde já se viu um juiz que entende de Direito com quatro oficiais leigos? Já fazem isso para que a gente desista", desabafou.
Jacklline garantiu que os advogados vão recorrer. "Não acabou. Já me jogaram nessa cova há quatro anos e três meses e eu sei com quem eu estou lutando. Hoje eles estão comemorando em um bar, enquanto eu engulo minhas lágrimas. Vamos recorrer e vamos buscar justiça até a ultima instância. Não com vingança, mas eu quero justiça. Quero um dia poder viver o meu luto. No final vai ser eu comemorando e eles perdendo a farda. Essa é só uma vitória breve, eles já me venceram há quatro anos, mas eu vou lutar até o final", disse.
Rodrigo Mondego, advogado da família de Kathlen Romeu, também criticou a absolvição. Ele destacou a existência de um vídeo que mostra os policiais recolhendo munições no local do crime. "Os PMs envolvidos na morte da Kathlen Romeu foram absolvidos da acusação de fraude processual, mesmo com vídeo mostrando eles catando as balas no chão. O conselho, que tem quatro PMs, votou pela absolvição. O juiz, único civil, votou pela condenação. É um escárnio corporativista", declarou.
A deputada federal Talíria Petrone (PSOl) também se mostrou indignada com o resultado. "A Justiça Militar não pode funcionar com o objetivo de proteger criminosos do estado. São quatro anos esperando por justiça. A gente reverbera aqui a frase de Jackeline, mãe de Kathlen, que foi morta grávida pela PM: 'O que eu vejo é o Estado debochar diariamente da nossa cara'."
Réus por homicídio
Em março deste ano, a Justiça do Rio decidiu que os PMs Marcos Felipe da Silva Salviano e Rodrigo Correia de Frias, acusados de fazer disparos na ação que matou a jovem, serão levados a júri popular. O julgamento ainda não tem data marcada. Na decisão, a juíza Elizabeth Machado Louro afirmou que se baseou no laudo da reprodução simulada para indicar a autoria dos dois agentes.
"O laudo de reprodução simulada acostado no índice 1047 é suficiente para indiciar a autoria, ao menos para os fins desta decisão", destacou a juíza. Eles vão aguardar o julgamento em liberdade.
Relembre o caso
Em junho de 2021, a jovem Kathlen de Oliveira Romeu, de 24 anos e grávida de quatro meses, foi baleada durante uma ação policial de militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio.
Segundo as investigações, Marcos Felipe e Rodrigo realizavam patrulhamento de rotina na área conhecida como Beco da 14, próximo à Rua Araújo Leitão, por onde a jovem passava com a avó. A dupla alega que houve troca de tiros com traficantes locais e a vítima acabou sendo atingida.



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