Forças de Segurança do Rio realizam operação nos Complexo da Penha e Alemão, com o objetivo de prender lideranças criminosas do Rio e de outros estadosMAURO PIMENTEL / AFP

Rio - Diversas organizações e entidades de direitos humanos se manifestaram, nesta terça-feira (28), após a megaoperação policial realizada nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte. A ação terminou com ao menos 64 mortos, sendo 60 suspeitos e quatro policiais. As instituições expressaram preocupação com a letalidade da ação, classificando-a como a mais violenta da história do estado, e pediram esclarecimentos às autoridades sobre as circunstâncias da operação.

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj criticou a violência da operação. Em nota, o órgão afirmou que acompanha o caso com "extrema preocupação" e encaminhou ofícios ao Ministério Público e às polícias Civil e Militar pedindo explicações. Presidente da comissão, a deputada Dani Monteiro (PSOL) defendeu que "nenhuma política de segurança pode se sustentar sobre esse banho de sangue" e cobrou cooperação entre os governos estadual e federal, em vez de disputas políticas.

A Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ) ressaltou que o dever constitucional de preservar a ordem pública não autoriza práticas que coloquem em risco a vida e as liberdades fundamentais. A Comissão de Direitos Humanos da entidade defendeu que o governo estadual apresente, de forma transparente, o planejamento e a execução da chamada "Operação Contenção". Para o presidente da comissão, Sidney Guerra, a segurança pública deve ocorrer "dentro dos marcos do Estado Democrático de Direito", sem suprimir garantias constitucionais nem causar perda de vidas humanas.

A ONG Rio de Paz também se posicionou contra o que chamou de "banho de sangue". Fundador da organização, Antônio Carlos Costa disse que a operação repete práticas já comprovadamente ineficazes e expõe civis inocentes a riscos de morte. "Esse Estado só se faz presente na comunidade pelo seu poder bélico. Por que não levar serviços públicos — moradia, saúde, educação — em vez de ocupar com violência?”, questionou.

Em nota conjunta, Anistia Internacional Brasil, Justiça Global, CESeC, Conectas Direitos Humanos e outras mais de 20 organizações afirmaram que a operação representa "o fracasso e a violência estrutural da política de segurança do estado". As entidades criticaram o padrão de letalidade das forças policiais e destacaram que o governador Cláudio Castro é responsável por quatro das cinco operações mais mortais da história do Rio. Segundo o documento, as ações do governo violam princípios internacionais sobre o uso da força, como legalidade, proporcionalidade e responsabilidade, e mantêm uma lógica de "guerra às drogas" que recai sobre as populações negras e empobrecidas.
O Instituto Marielle Franco afirmou que o que ocorre nas favelas cariocas representa a "suspensão do direito à vida", denunciando que as comunidades foram transformadas em "zonas de guerra". A organização classificou a ação como uma “política de extermínio” voltada contra a população negra e pobre e destacou os impactos sobre o cotidiano dos moradores — com escolas fechadas, trabalhadores impedidos de sair de casa e famílias acuadas.
As instituições pediram transparência, responsabilização e revisão das práticas policiais no estado, além da implementação de políticas de segurança baseadas em inteligência, prevenção e respeito à vida.