O cardiologista e coordenador da emergência do Hospital Badin, Lucio AbreuDivulgação

Ceias fartas, bebida, calor e gente reunida. São muitas as  tentações à mesa. O resultado pode ser diverso: sensação de empanzinamento, enjoo, dor de cabeça ou na barriga, fraqueza... enfim, a maioria motivada pelo exagero. Mas como lidar com a vontade de festejar e os cuidados com a saúde?O nutricionista Juan Santana, do Hospital Badim (RJ), garante que o segredo é evitar o 'tudo ou nada'. A grande disponibilidade de comida à mesa e a carga emocional dessa época são um convite à quebra da rotina, segundo ele. "Esses fatores fazem com que a gente coma mais por impulso, afinal, comida também é diversão, mas festa sobretudo é convivência, não apenas sobre comida", pondera.
Mas se você é daqueles que pensa que a combinação de comida, bebida e falta de sono em excesso apenas durante quatro dias não fazem mal à saúde, você pode estar enganado. "O importante é o que você faz não somente nos dias 24, 25, 31 ou primeiro, mas o que você faz entre 2 de janeiro e 23 de dezembro", ressalta o nutricionista.
Da mesma opinião, compartilha a endocrinologista Vanessa Montanari. "As festas de final de ano não precisam virar sinônimo de ganho de peso. O segredo é estratégia, não restrição extrema. Não é o Natal ou o Réveillon que engordam — é o de 15/12 a 15/01".
Ele diz que as pessoas devem  priorizar proteína e fibras nas refeições antes das festas como ovos, iogurte, carnes magras e legumes. Além disso, segundo a especialista, é importante se hidratar bem. "Aproveite conscientemente, não automaticamente".
No entanto, o coordenador da emergência do mesmo hospital, o cardiologista Lúcio Abreu,diz que alguns comportamentos podem ter impactos mais sérios do que imaginamos para a saúde. "Pacientes portadores de algumas doenças, como diabetes e hipertensão, por exemplo, precisam ter cuidado. O aumento excessivo da glicose, pode levar a quadros preocupantes e até evoluir para terapia intensiva, como é o caso da cetoacidose diabética", alerta o profissional.
Cautela com o refrigerante zero
Para cuidar da diabetes nas festas de fim de ano, a endocrinologista Thatyane da Silva, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes,  diz que é preciso focar em moderação, movimento e monitoramento, priorizando alimentos integrais e fibras, bebendo bastante água, fazendo caminhadas após as refeições para controlar a glicemia, e sempre medindo a glicose com mais frequência, com auxílio de um médico para ajustar medicação e aproveitar com responsabilidade e equilíbrio, evitando excessos.
Ela afirma que é possível aproveitar as festas comendo bem com equilíbrio, sem deixar os exercícios físicos de lado. Orienta a evitar beber álcool e refrigerantes, inclusive o zero. "Se tem o falso conceito que eu vou beber muito refrigerante zero e está tudo bem e não está porque o zero contém muito sódio. Melhor investir em águas saborizadas, água com gás, consumo de limão. Isso vai fazer bem ao pacientee diabético e evita que no outro dia a pessoa tenha uma hiperglicemia, um índice glicêmico, uma glicemia muito alta. Sobre as sobremesas, as sobremesas você tentar evitar, e se não for possível evitar as sobremesas, comer com moderação.
Para o médico Lúcio Abreu, mesmo as pessoas sem comorbidades precisam ser atentas a algumas condições. "Por exemplo, se você vai viajar para lugares sem muita estrutura é recomendável beber água potável, preferencialmente, a mineral para evitar risco de contaminação. Outro cuidado é em relação a aglomeração, condição propícia para a transmissão dos processos virais. Esses dois comportamentos acabam levando pessoas à emergência" , observa.
Frituras e embutidos são os vilões
De acordo com Abreu, os principais vilões dessa época do ano são os salgadinhos, as frituras, os embutidos, o bacalhau e as bebidas alcoólicas, quando consumidos em excesso. Ele afirma que manter-se hidratado é fundamental. "Dê preferência à alimentação mais leve e, se for comer algo que seja rico em sal e em gordura, o ideal é restringir a quantidade. Importante também dar um espaço maior entre as refeições para ter uma boa digestão e não cair em 'armadilhas', como o aumento do teor de gordura circulante e de sódio circulante no organismo.” Em relação às bebidas, a palavra de ordem é moderação.
"Beba quantidades pequenas e se mantenha o tempo todo hidratado. Uma dica é alternar a bebida com água mineral, para você conseguir se manter hidratado e evitar aquela sensação desagradável da ressaca e do mal-estar", complementa.

O médico explica que a gastrite, por exemplo, está relacionada com alimentos que são mais ácidos ou mais gordurosos e até mesmo com a própria bebida alcoólica. Já as gastroenterites, também comuns a esse período do ano, são as infecções que podem levar à diarreia e à dor abdominal importante e são mais pertinentes ao excesso de gordura.
"Às vezes, alimentos que podem estar guardados em quantidade ou em temperaturas não apropriadas, como o caso de maionese, camarão e ovo, são muito sensíveis a algumas bactérias que podem levar a infecções graves.”
Privação do sono é preocupante

O coordenador da emergência do Hospital Badim explica que a privação do sono pode levar a efeitos fisiológicos importantes, como hipertensão, irritabilidade e falta de atenção. "Se a gente juntar a perda de sono, com uma dieta que não está acostumado, a ingestão de bebida alcoólica e o exercício físico maior que o habitual, como dançar para comemorar essas datas, esses componentes todos combinados levam a um desgaste significativo do organismo. Então, a sugestão é descansar e se hidratar melhor, comer comidas leves com pouca gordura e frutas para poder estar bem na folia e não perder a festa.

E o cardiologista faz um alerta: "tem gente que vai para as festas e para de usar a medicação anti-hipertensiva porque vai ingerir bebida alcoólica. Isso é muito pior! O ideal é não ingerir bebida alcoólica, mas, se o fizer, não pare de tomar o seu remédio porque você pode fazer uma elevação da pressão arterial e vai estar descoberto da medicação que, somada a toda a ingestão de bebidas e comidas ricas em sódio, acaba fazendo picos pressóricos muito elevados, levando a urgências graves como a encefalopatia hipertensiva, dor de cabeça forte e ao próprio pico hipertensivo.”

Orientações para festejar sem ter problemas
Se você quer passar bem as festas de fim de ano, siga as orientações dos profissionais Juan Santana e Lúcio Abreu
1 – Evite os alimentos com mais calorias vazias (carboidratos e gorduras sem muitos nutrientes). Prefira alimentos naturais, inclua proteínas (que aumentam a saciedade). Se for consumir álcool, alterne com água. Você vai ao banheiro mais vezes, mas se manterá hidratado;
2 – Para não beliscar demais’ antes da ceia, a recomendação é manter as refeições do seu dia normalmente. Isso evita que você chegue na ceia com muita fome. Com fome, a tendência é beliscar muito mais;
3 - Quando o cardápio for muito calórico, o ideal é diminuir a proporção e equilibrar com uma boa fonte de proteína ou vegetais para melhorar a composição geral da refeição. Quer comer rabanada? Coma, mas apenas uma e não três.
4 – Para ajudar o corpo a regular melhor a saciedade, a dica é comer devagar. Isso faz parte do início do processo digestivo e ajuda a sinalizar ao cérebro que o corpo está recebendo alimento. A percepção de prazer melhora porque você realmente saboreia o que está comendo.
5 – Compensar no dia seguinte — com jejum ou restrições — não é uma boa ideia. Isso só cria um ciclo vicioso de culpa. O ideal é simplesmente voltar para a sua rotina normal.
6 – Para se recuperar dos exageros, a dica é descansar, se alimentar bem e beber água de coco, além de ajudar na reposição de água, ela contém alguns eletrólitos importantes para o organismo;
7 - Fique atento aos sinais de quando procurar a emergência! Se você é hipertenso e tiver dor na nuca constante, é melhor aferir a pressão. Se a mínima ou a máxima estiver variando cerca de 10% da sua pressão habitual, é melhor procurar ajuda médica. Já os diabéticos, devem procurar por socorro em caso de sonolência, desorientação, diurese excessiva ou boca, língua e lábios secos.
Veja as dicas da médica Vanessa Montarani
Para evitar exageros 
•Monte o prato assim:
• ½ do prato com proteínas (aves, peixes, carnes)
•¼ com saladas/legumes
•¼ com carboidratos (arroz, massas, farofa)
•Escolha o que você realmente gosta — não tudo.
Evite armadilhas comuns
•Comer beliscos sem perceber (castanhas, petiscos, sobremesas).
•Repetir por hábito, não por fome.
•Comer rápido demais (saciedade demora 20 min).
Bebidas alcoólicas
•Intercale álcool com água.
•Prefira:
•Vinho seco
•Espumante brut
•Destilados com água ou zero açúcar
•Evite bebidas muito açucaradas (licores, drinks prontos).
Sobremesas
•Sirva porção pequena.
•Coma sentado, com atenção, sem culpa.
•Se quiser repetir, espere alguns minutos e avalie a fome real.
Movimento conta muito
•Mantenha rotina mínima de treino (mesmo que mais curta).
De olho na saúde bucal
E quem pensa que a saúde bucal também pode ser deixada de lado durante as festas de fim de ano está completamente enganado. Leonardo Acioli, dentista e CEO da SorriaMed, reforça a importância de manter a higiene bucal durante as festas de fim de ano. Segundo ele, preservar a rotina de escovação, usar fio dental diariamente e beber água ao longo dos eventos, ajudam a manter a saúde bucal.
"É recomendado evitar palitos de dente e redobrar a atenção com alimentos doces, pegajosos ou muito duros, especialmente para quem usa próteses ou aparelho ortodôntico. Bebidas como vinho tinto, café e refrigerantes podem manchar o esmalte dental, e frutas ácidas e cítricas, como abacaxi e maracujá, também exigem cuidados pois podem provocar erosão do esmalte e aumentar a sensibilidade dental", explica o profissional.
Restrições alimentares podem complicar
E se tem gente que exagera, outros não ligam tanto ou não podem beber e nem comer muito e, por vezes, até se sentem um pouco de lado. O psiquiatra Diogo Abrantes Andrade fala a respeito. "No final de ano, comida e bebida deixam de ser apenas escolhas individuais e passam a cumprir uma função social. Isso pode ser especialmente prejudicial para pessoas com restrições alimentares, em dieta ou com transtornos alimentares, que frequentemente se sentem pressionadas a seguir um padrão imposto ou acabam vivenciando situações de exclusão", diz ele.
O profissional também pontua sobre as bebidas. "O álcool é um ponto ainda mais sensível, frequentemente tratado como parte indispensável das celebrações, dos encontros familiares aos happy hours corporativos. Quem opta por não beber, seja por tratamento de saúde ou por escolha pessoal, muitas vezes é pressionado, questionado ou alvo de chacota. Esse fenômeno, conhecido como sober-shaming, expõe a pessoa a constrangimento e sofrimento psíquico justamente em um período que deveria ser de convivência e acolhimento. No limite, passa a ser um fator de risco para recaídas para pessoas com dependência", finaliza.
Você pode gostar
Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.