Zé da Velha deixa três filhos e três netosRachel Siston/Agência O Dia

Rio - A despedida ao ícone do choro e trombonista Zé da Velha foi marcada por homenagens e comoção de familiares e amigos, neste sábado (27), no Cemitério de Inhaúma. José Alberto Rodrigues Matos estava internado em um hospital em São Cristóvão, na Zona Norte, e morreu nesta sexta-feira (26), aos 83 anos, por conta de uma infecção generalizada.  
Na despedida, artistas tocaram músicas que marcaram a trajetória de Zé da Velha e emocionaram parentes, amigos e admiradores (Confira abaixo). 
Dupla do artista há mais de 30 anos, o trompetista Silvério Pontes descreveu o parceiro como um pai e homem generoso. "Independente do músico Zé da Velha, o José Alberto era um ser humano maravilhoso e muito generoso. Deus me deu o privilégio de tocar com ele durante esses anos todos e eu só aprendi com ele, como um bom homem, um bom pai, bom marido, que sempre agregou", afirmou o músico.
Ainda segundo Silvério, o legado deixado por Zé da Velha será honrado por ele e pelas novas gerações. "O Zé me ensinou a tocar as notas com amor, esse é o legado que ele deixou para mim. Ele era meu pai, meu amigo e meu mestre musical. O choro está de luto, porque o Zé era um dos poucos que trazia o legado do Pixinguinha, da Velha Guarda. Ele era um músico raro, um mestre. Ele era referência, só deixou coisas boas. Eu prometo que vou levar o legado dele. O objetivo do Zé sempre foi tocar música com o coração e isso ele me ensinou, a preocupação de preservar o choro". 
José Alberto começou a tocar trombone ainda na adolescência, influenciado pelo pai, e a carreira ganhou impulso aos 15 anos, quando passou a tocar com nomes lendários, como Pixinguinha, Donga e João da Baiana no conjunto Velha Guarda, grupo que rendeu o apelido pelo qual ficou conhecido.
Presença constante nas rodas de choro e gravações históricas, Zé da Velha expandiu seu repertório com a conexão com outros grandes nomes da música, como Jacob do Bandolim, Paulo Moura, Abel Ferreira, Waldir Azevedo, além de cantores de sucesso como Beth Carvalho, Martinho da Vila, Luiz Melodia e Elza Soares.
Nos anos 1990, formou com Silvério uma das parcerias mais celebradas do choro instrumental, apelidada carinhosamente pela crítica de "a menor big band do mundo". A dupla gravou vários discos, dentre eles "Só Gafieira!", "Tudo Dança" e "Ouro e Prata". Zé também teve uma ligação direta e afetiva com o Conjunto Casuarina, um dos grupos responsáveis pela renovação do samba e do choro a partir dos anos 2000. Desde 2021, o trombonista estava afastado dos palcos, por conta de problemas de saúde. No entanto, segundo um dos filhos, a música continuou como uma constante até o fim da vida. 
"A gente botava ele para escutar as músicas e ele brincava dizendo: "esse 'cara' aí é bom". De vez em quando, Silvério ia para lá com os garotos e faziam uma 'farrinha' e ele falava: "está desafinado um pouquinho". O ouvido dele era muito bom. Como ele perdeu a emborcadura, ele não conseguia mais tocar e acabou parando e as coisas foram se agravando. Mas ele nunca perdeu essa alegria, a música sempre foi o amor dele, o trombone já veio do meu avô, que tocava, e ele era apaixonado pela música. Ele tocava de coração", declarou Denilson Matos. 
Apesar dos filhos e netos não terem seguido a carreira musical, o legado de Zé da Velha já foi passado adiante. O trombone usado por ele ao longo dos anos de apresentações foi herdado por Everson Moraes, 39, admirador desde os 15 anos e também trombonista. O músico conta que uma apresentação do artista em sua cidade natal, Cordeiro, na Região Serrana, em 2001, mudou sua vida e o apresentou ao mundo do choro. 
"Eu conheci o Zé em 2001, eu tinha 15 anos e quando eu vi o Zé tocar pela primeira vez, mudou a minha vida. O Zé tocava com o coração e essa forma dele tocava as pessoas. Quando eu vi ele tocando, falei: "é isso que eu quero fazer, é dessa forma que eu quero tocar meu trombone". E da lá para cá, tive oportunidade de estar com o Zé várias vezes, fiz trabalhos sobre ele. Ele é uma referência do choro e sempre foi uma grande referência para mim. A família dele ter deixado o instrumento para mim é uma coisa que me toca muito. É um instrumento que tem muita história, o Zé tocou a vida toda com ele. É uma alegria e uma responsabilidade muito grande de tentar chegar um dia no que ele foi". 
O arcodeonista Alessandro Kramer, conhecido como Bebê Kramer, relembrou de quando foi acolhido pelo músico ao chegar do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, em 2006. "Quando eu cheguei, o Zé e o Silvério me acolheram na casa, no coração e na música deles. Isso tem uma representatividade muito grande na minha história, porque hoje eu sou um outro músico, outra pessoa, depois que eu conheci o Zé da Velha. Ele era uma pessoa muito íntegra, de um caráter inegável, de muito bom coração, e vai deixar muitas saudades, por conta dessas coisas maravilhosas que ele carregava e deixou para a gente". 
Nascido em Aracaju, no Sergipe, em 4 de abril de 1942, Zé da Velha vivia em Olaria, na Zona Norte do Rio, e deixa três filhos e três netos. Muito abaladas, as filhas precisaram ser consoladas por parentes e amigos durante o velório. "Antes de Zé da Velha, ele era José Alberto, um pai presente, que vivia para a família. Era muito bom acordar com um chorinho, com ele tocando. Ele sempre foi muito fã de tocar, tocava sempre de coração", destacou Denilson.