Rio - Três araras-canindés (Ara Ararauna), chamadas carinhosamente de Fernanda, Fátima e Sueli, foram soltas no Parque Nacional da Tijuca após mais de 200 anos de extinção local. Carregando as cores da bandeira do Brasil, elas irão viver livres para ajudar na restauração ecológica da Mata Atlântica do Rio de Janeiro.
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Desde junho do ano passado, quando chegaram à unidade de conservação trazidas do Parque Três Pescadores (Aparecida, SP), elas permaneceram em um recinto apropriado, reconhecendo o ambiente. O trio retornou à natureza no último 7 de janeiro.
Nesse período, passaram por um treinamento gradual, porém intenso, para desenvolver musculatura e aprimorar as habilidades de voo. Aprenderam a evitar a presença humana e iniciaram uma transição alimentar para reconhecer os frutos nativos da floresta onde vão viver. Além disso, também foram monitoradas a interação social e as condições físicas de cada animal.
A iniciativa é realizada pelo Refauna, uma Organização da Sociedade Civil (OSC) brasileira, com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de diversos parceiros.
Lara Renzeti, bióloga do Refauna e Coordenadora de Reintrodução das Araras, explica que o planejamento para trazer de volta as araras ao Rio começou em 2018, com destaque para a questão sanitária, que é desafiadora nesta espécie. "O período de aclimatação exigiu uma dedicação enorme da equipe. Desejamos que as araras se adaptem bem à vida livre e que os moradores e visitantes do Rio de Janeiro tenham, no futuro próximo, a oportunidade de avistar essas aves maravilhosas colorindo o céu da cidade. A reintrodução das araras agora precisa da colaboração dos cariocas, cuidando e valorizando os animais livres como eles devem ser", disse.
Para Viviane Lasmar, analista ambiental do Instituto Chico Mendes e Chefe do Parque Nacional da Tijuca, essa iniciativa é uma vitória para o Rio e um exemplo para o mundo. "Esse momento é esperado não há sete meses, mas há mais de 200 anos. As araras-canindés do Parque Nacional da Tijuca agora são as araras do Rio, dos cariocas e de todos os brasileiros. Elas também são um exemplo para o mundo do que é possível realizar dentro de Unidades de Conservação. Daqui pra frente, em conjunto, seremos todos responsáveis pela sobrevivência desses animais em vida livre e, nós do ICMBio, acreditamos que a Ciência Cidadã é a grande aliada neste processo de monitoramento constante", explica Viviane.
Uma quarta arara, batizada de Selton, que chegou no Parque em 2025 junto com as demais e passou por esse ritual, ainda vai aguardar mais um pouco para voar em liberdade. Ele está passando por uma troca de penas e, enquanto esse ciclo não se completa..
Monitoramento com a Ciência Cidadã
As araras foram liberadas com anilhas, microchips e colares de identificação e serão monitoradas pela equipe do Refauna. Essa estratégia já foi testada e usada em outros projetos de monitoramento, como o do Instituto Arara-Azul. O monitoramento em vida livre se dará também a partir dos relatos e informações enviadas pela sociedade.
A participação ativa de pessoas coletando e disponibilizando dados é conhecida como Ciência Cidadã, e pode ser exercida por qualquer um que tenha interesse em contribuir. Isso pode ser feito por meio do envio de informações para o Instagram do Refauna ou para o WhatsApp (21 96974-4752) que visa facilitar o contato direto com moradores do entorno do parque.
Outro instrumento para o monitoramento participativo é o SISS-Geo, um aplicativo gratuito de registro da fauna silvestre, desenvolvido pela Fiocruz. Nele, é possível enviar fotos e informações quando uma das araras for avistada, mesmo sem sinal de internet.
Além disso, os pesquisadores já começaram a interlocução com observadores de aves no Rio e estudam realizar cursos de formação com guias que atuam dentro do Parque Nacional da Tijuca, como forma de promover a educação ambiental.
É importante reforçar que, caso a equipe identifique qualquer risco à saúde ou à adaptação das aves, está prevista a possibilidade de recaptura para manejo, tratamento ou ajustes no processo de reintrodução.
Uma aclimatação com muito treino e jabuticaba
Lara explica que, nesses sete meses de aclimatação, as rotinas do treinamento de voo foram do nível básico ao avançado, sempre evoluindo quando todas as araras correspondiam ao que era esperado em cada etapa. Além disso, a equipe observou que as aves interagiram com árvores presentes no recinto de aclimatação e com outros animais nativos.
Apesar de terem sido flagradas comendo até troncos de árvores, o período de aclimatação foi marcado por uma preferência: as jabuticabas. Fruto nativo da Mata Atlântica e encontrado no Parque, introduzido gradualmente na dieta, tornou-se o queridinho das araras. No entanto, Lara ressalta que elas precisarão se adaptar ainda mais.
O futuro das araras no Rio
Fernanda, Fátima e Sueli são pioneiras, mas não serão as únicas. Selton deverá receber, ainda em 2026, a companhia de mais dois ou três casais da mesma espécie. Atualmente, esses animais estão passando por exames sanitários e pela aprovação de toda a documentação necessária, etapas que vem evoluindo positivamente, de acordo com o Refauna.
A expectativa é que a reintrodução dessa segunda leva de araras possibilite também a reprodução, o que vai permitir a consolidação do retorno dessas aves aos céus de onde nunca deviam ter deixado de voar. A iniciativa prevê uma ampliação gradual do projeto, com a meta de alcançar a reintrodução de 50 araras-canindés ao longo de cinco anos.
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