Camila Sampaio fala dos danos da doença do beijo para a peleDivulgação

O famoso bordão 'Eu vou beijar muuuuito', da personagem Talia, interpretada por Cláudia Rodrigues no programa Zorra Total da Rede Globo nos idos dos anos 90 e 2000, ganha muita força durante os blocos de carnaval e em todos os dias de folia. O que aparentemente é apenas uma grande curtição momesca pode se tornar um grande problema.Profissionais de saúde afirmam que os foliões devem ter cuidado com a 'doença do beijo', cientificamente chamada de mononucleose infecciosa, causada principalmente pelo vírus Epstein-Barr (EBV), que pertence à família do herpesvírus.
A transmissão ocorre fundamentalmente pela troca de saliva. Daí o nome popular que pode deixar muita gente assustada, principalmente adolescentes e jovens que querem curtir o carnaval beijando várias bocas por aí sem saber o que vai acontecer depois.
Vale lembrar que os sintomas incluem febre alta, dor dor de garganta intensa, inflamação, ínguas (gânglios) no pescoço e fadiga extrema, mal estar e cefáleia, herpes e a doença é autolimitada, ou seja, cura-se sozinha com repouso e hidratação, embora os sintomas possam durar algumas semanas.
Saliva é o principal meio de contágio
Clínico geral do Hospital Quali Ipanema, na Zona Sul do Rio, doutor Elpídio Franco alerta para alguns cuidados ao se beijar pessoas desconhecidas pois pode ser a porta de entrada para muitas doenças, além da mononucleose infecciosa.
"O carnaval é uma festividade de alegria e muitos encontros, mas é bom tomar cuidados na hora de dar beijo. A saliva é o principal meio de transmissão, especialmente quando há lesões orais ou infecção ativa", alerta o especialista.
Ele conta que o beijo pode transmitir herpes simples tipo 1 (herpes labial), Influeza e outras viroses respiratórias, Covid0-19, citomegalovírus, caxumba, infecções bacterianas de orofaringe, como faringites e amigdalites e impetigo.
De acordo com o profissional, na doença do beijo podem ocorrer inclusive acometimento de órgãos como fígado, baço levando à hepatosplenomegalia, o que exige atenção clínica redobrada. Ele explica que existe a necessidade de procurar um médico se a febre persistir por mais de 48-72 horas, dor intensa para engolir, dor abdominal, cansaço de desproporcional e /ou progressivo e se surgirem lesões extensas, dolorosas ou com sinais de infecção bacteriana.
Sem pânico

A infectologista Camila Ahrens, do Hospital Sao Marcelino Champagnat, em Curitiba, diz que se alguém 'pegar' a doença do beijo não é motivo para pânico. Mas há de se ter bom senso. "Evite beijar pessoas com lesões aparentes e, se você estiver doente ou com herpes ativa, o mais cuidadoso é não beijar naquele momento. O beijo envolve troca de saliva e contato muito próximo, então algumas infecções podem ser transmitidas, principalmente se alguém estiver com sintomas ou lesões na boca", diz ela, explicando que a mais comum é o herpes labial.
"Se uma pessoa estiver com aquelas bolhinhas ou feridinhas nos lábios, o risco de transmissão é alto. Também vemos casos de mononucleose — conhecida como doença do beijo — além de gripe, resfriados e outras viroses respiratórias.Outro ponto importante é a saúde da boca. Aftas, cortes ou inflamações na gengiva facilitam a entrada de microrganismos", pontua.
Festa favorece a transmissão
Já o ginecologista César Patez diz que a 'doença do beijo' merece atenção especial nesta época do ano pois o Carnaval favorece a principal forma da e transmissão do vírus Epstein-Barr, que é o contato direto com a saliva. Beijos frequentes, compartilhamento de copos, latas, garrafas e até cigarros aumentam o risco de contágio, muitas vezes sem que a pessoa perceba.
"Como ginecologista, é importante reforçar que, embora a mononucleose não seja uma infecção sexualmente transmissível clássica, ela costuma surgir após contatos íntimos comuns nessa época do ano e pode ser confundida com outras infecções, já que provoca febre, mal-estar intenso, dor de garganta, aumento dos gânglios no pescoço e cansaço prolongado. Em mulheres, o quadro pode impactar diretamente a rotina, o sistema imunológico e até o ciclo menstrual de forma indireta, já que o estresse físico da infecção pode atrasar ou desregular a menstruação", explica o profissional.
Pele também sofre
Em entrevista ao jornal O DIA, a dermatologista Camila Sampaio afirma que a pele também pode ser afetada em caso de mononucleose infecciosa.

O DIA: A doença do beijo pode causar alterações na pele?
Camila Sampaio: Sim. Durante a mononucleose infecciosa é relativamente comum o surgimento de manchas avermelhadas, erupções pelo corpo e até coceira. Essas manifestações podem estar relacionadas à resposta inflamatória do organismo ao vírus ou a reações desencadeadas pelo uso inadequado de antibióticos, especialmente penicilinas, que não tratam a infecção viral e podem provocar quadros cutâneos importantes.

O DIA: As lesões de pele da doença do beijo podem ser confundidas com alergia ou outras doenças?
Camila Sampaio: Com frequência. Muitos pacientes acreditam estar diante de uma alergia medicamentosa ou até de uma infecção de pele. O dermatologista avalia o padrão das lesões, o momento em que surgiram e o histórico clínico para diferenciar a mononucleose de dermatites, viroses comuns ou até de algumas infecções sexualmente transmissíveis que também afetam pele e mucosas.

O DIA: A doença do beijo pode provocar feridas na boca ou nos lábios?
Camila Sampaio: Pode, sim. A queda de imunidade durante a infecção favorece o aparecimento de aftas, inflamações na mucosa oral, ressecamento dos lábios e pequenas fissuras. Essas alterações costumam ser temporárias, mas podem causar bastante desconforto, exigindo cuidados específicos para evitar infecções secundárias.

O DIA: Existe risco de a doença do beijo deixar marcas na pele?
Camila Sampaio: Na maioria dos casos, não. As lesões cutâneas associadas à mononucleose tendem a desaparecer completamente com a recuperação do paciente. No entanto, se houver coceira intensa, infecção secundária ou manipulação das lesões, podem ocorrer manchas residuais temporárias, principalmente em pessoas com pele mais sensível.

O DIA: Quando o paciente com suspeita de doença do beijo deve procurar um dermatologista?
Camila Sampaio: Sempre que surgirem manchas extensas, coceira intensa, lesões na boca, reações após uso de medicamentos ou dúvidas sobre o diagnóstico. O dermatologista atua de forma complementar, ajudando a identificar manifestações cutâneas da doença, orientar o tratamento adequado da pele e evitar complicações enquanto o organismo se recupera da infecção viral.
Veja como proceder
•Evitar beijo em pessoas com feridas nos lábios, herpes ativo ou sintomas gripais
•Não compartilhar copos, garrafas, latinhas, canudos .
•Manter boa hidratação, alimentação adequada e sono
•Higienizar as mãos com frequência