Jane Carvalho perdeu a filha, Fernanda Cabral, envenenada em 2022Reprodução / Redes Sociais
'Grito foi liberto', diz mãe de irmãos envenenados sobre condenação de madrasta
Cíntia Mariano Cabral terá que cumprir uma pena de 49 anos de prisão pela morte da enteada e tentativa de homicídio do enteado
Rio - "O grito guardado na garganta há quatro anos foi finalmente liberto". A fala é de Jane Carvalho, mãe dos irmãos Fernanda e Bruno Cabral, envenenados pela madrasta Cíntia Mariano Cabral, condenada nesta quinta-feira (5) a 49 anos de prisão pela morte da jovem e pela tentativa de homicídio do irmão.
Jane usou as suas redes sociais, na noite desta quinta, para celebrar a decisão do júri popular. "Foram 17 horas exaustivas, de confronto, com uma defesa hilária que não merece nem o nosso comentário, mas a justiça finalmente foi feita. Nada vai trazer a Fê de volta, mas é um pouco confortante para mim, meus familiares e amigos, que tanto me apoiaram", disse.
O julgamento teve início na tarde da última quarta-feira (4), atravessou a madrugada e terminou na manhã desta quinta. A Justiça do Rio determinou uma pena de 49 anos, seis meses e 20 dias de prisão em regime fechado para a madrasta das vítimas.
Na decisão, a juíza Tula Mello destacou a premeditação do crime, planejado friamente. Com base nos depoimentos prestados, a magistrada constatou que Cíntia tinha costume de causar intrigas entre os enteados, motivado por ciúmes excessivos.
Mello destacou ainda que a acusada prejudicou o atendimento médico a Fernanda, que não resistiu e morreu após quase duas semanas internada no Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, na Zona Oeste. A morte aconteceu em março de 2022.
"A ré, quando chegou ao hospital, relatou para os médicos, assim como para as famílias, que a vítima poderia estar passando mal em decorrência de atividades físicas, insinuando o uso de anabolizantes, 'bomba'. Inclusive, o médico plantonista e a médica afirmaram que foi levantada a hipótese de uma possível intoxicação. Então, a tentativa da acusada de ocultar a realidade fática, mediante fornecimento de informações falsas para despistar a equipe médica, prejudicou o pronto atendimento e diminuiu a sua chance de sobrevida", diz um trecho da sentença.
Em depoimento realizado na quarta-feira (4), Bruno Cabral, que na época do crime tinha 16 anos, contou que havia sido convidado pela madrasta para almoçar na casa do pai Adeílson Jarbas Cabral. Ele destacou que Cíntia o serviu um prato com feijão, o que não era comum.
"Ela me entregou o prato só com feijão, só o meu, e pediu para eu me servir com o restante da comida. Achei estranho, mas relevei. Estranhei o gosto, porque já tinha comido a comida dela. Comecei a achar pedrinhas azuis e comecei a separar. Perguntei para ela, que ficou nervosa e apagou a luz da sala enquanto todo mundo ainda estava comendo", relatou.
Segundo o jovem, a mulher pegou o prato após o comentário e jogou a comida fora, colocando mais em seguida. De acordo com ele, este já não apresentava pedras ou gosto amargo. Bruno relatou também que, embora tivesse sabor diferente, não chegou a comer muito da nova comida. Nervoso com as pedras, ele foi para a casa da mãe, que pesquisou o que poderia ser na internet e chegou à possibilidade de chumbinho. A vítima explicou que não começou a passar mal logo que chegou em casa, mas cerca de uma hora depois, acordou com a língua enrolada e suando, além de ter dificuldade para andar.
"Quando aconteceu comigo e eu acordei, na madrugada seguinte, no hospital, tive certeza do que aconteceu com a minha irmã", afirmou ele, que se emocionou ao relembrar a morte de Fernanda.
Ainda de acordo com Bruno, ele chegou a morar com o pai e Cíntia, mas voltou para a casa da mãe pouco tempo antes do ocorrido por problemas com a madrasta. Segundo o jovem, ela roubava dinheiro que o pai dava para ele.

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