Entre flores e violência: mulheres ainda enfrentam medo, abuso e silêncio no Brasil
Dados mostram aumento de estupros e feminicídios, enquanto vítimas relatam culpa, trauma e dificuldade para denunciar crimes que muitas vezes começam de forma silenciosa
Mulher foi agredida covardemente pelo ex-companheiro - Arquivo Pessoal
Mulher foi agredida covardemente pelo ex-companheiroArquivo Pessoal
“Eu não tinha nem força para dizer nem que sim e nem que não.” A frase é de uma jovem que prefere não se identificar e resume uma realidade que contrasta com o simbolismo do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. Enquanto a data é marcada por homenagens e discursos sobre direitos e conquistas, milhares de brasileiras ainda vivem sob medo, violência e silêncio. Dados da Rede de Observatórios da Segurança mostram que 961 casos de estupro ou violência sexual foram registrados em 2025 nos nove estados monitorados ( (AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ, SP), um aumento de 56,6% em relação ao ano anterior. No mesmo período, 546 mulheres foram vítimas de feminicídio e 1.004 morreram vítimas de homicídio, feminicídio ou transfeminicídio. No estado do Rio de Janeiro, 104 mulheres foram assassinadas por razões de gênero ao longo de 2025, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), e outras 307 sofreram tentativas de feminicídio. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, nove mulheres já foram mortas e outras 35 sobreviveram a tentativas de assassinato.
Por trás das estatísticas estão histórias como a da jovem que relata o estupro. Aos 19 anos, após sair de uma festa com amigos, ela foi para a casa de um deles. Embriagada e passando mal, ficou sozinha em um quarto quando o primo da amiga entrou e a atacou. “Saímos de uma festa e fomos todos para a casa dele. Eu estava passando mal. Fiquei sozinha num quarto e ele veio para cima de mim”, contou.
Na época, ela não procurou a polícia. O medo, a vergonha e a confusão sobre o que havia acontecido a fizeram permanecer em silêncio. “Eu me senti culpada por muito tempo. Coloquei na minha cabeça que tinha dado permissão para aquilo acontecer. Hoje entendo que eu não tinha condição nenhuma de tomar uma decisão naquele momento.”
Outra vítima, que também preferiu não se identificar, relata ter vivido um relacionamento marcado por violência psicológica, manipulação e controle. Segundo ela, o ex-companheiro fazia ligações insistentes durante a madrugada para sua casa, a ponto de sua avó cortar o telefone residencial para que a família tivesse paz. “Ele fazia eu acreditar que tudo era culpa minha. Se apertasse meu braço ou me machucasse, dizia que eu tinha provocado.”
Com o passar do tempo, o sofrimento emocional começou a se manifestar fisicamente. Ela passou a ter crises frequentes de ansiedade. “Eu vivia indo para emergência, passando mal com sintomas que eu não sabia explicar.”
Em uma das crises mais graves, enquanto discutia com o ex-companheiro por telefone, começou a sentir falta de ar, tontura e vômitos. Após diversos exames, uma médica explicou que os sintomas eram consequência de crises de ansiedade provocadas por estresse extremo.
Violência patrimonial também é crime
Especialistas alertam que a violência contra a mulher nem sempre começa com agressões físicas. A advogada Luciana Veras, pós-graduada em Direito Penal e Processo Penal, destaca a chamada violência patrimonial, quando o agressor tenta controlar ou prejudicar a autonomia financeira da vítima. “Violência patrimonial é qualquer ação que prejudique os bens, recursos financeiros ou propriedades da mulher. Pode ocorrer com destruição de objetos pessoais, controle do dinheiro ou impedimento de acesso aos próprios recursos”, explica.
Segundo a advogada, esse tipo de violência muitas vezes tem como objetivo manter poder e dependência. “A intenção é causar dano físico e psíquico e gerar dependência emocional e financeira”, afirma.
Ela orienta que mulheres que enfrentam esse tipo de situação procurem ajuda e registrem ocorrência. “A vítima pode procurar uma delegacia, de preferência especializada, e solicitar medidas protetivas para impedir a continuidade da violência. Também é possível pedir o bloqueio de bens ou reparação pelos prejuízos sofridos.”
Impactos psicológicos
Os impactos emocionais da violência também podem ser profundos e duradouros. A psicóloga Valeska Cordeiro, especialista em Saúde Mental, Psicanálise e Psicologia Jurídica, explica que os efeitos podem comprometer diferentes áreas da vida da vítima. “Os efeitos incluem angústia, medo, tristeza, baixa autoestima, culpa e isolamento social. Quando esses sentimentos persistem por muito tempo ou de forma intensa, podem evoluir para transtornos como ansiedade, depressão e fobia social”, afirma.
Segundo ela, a violência psicológica costuma surgir de forma silenciosa. “É um processo gradual, que pode começar com comentários ofensivos ou ironias e evoluir para humilhação e desvalorização constante da vítima.”
Para a especialista, a rede de apoio é fundamental para que a mulher consiga romper o ciclo de violência. “O acolhimento familiar, a terapia e grupos de apoio ajudam a mulher a recuperar a autoestima e compreender que ela não está sozinha.”
Medo ainda impede denúncias
Apesar da gravidade dos casos, muitas vítimas ainda têm medo de denunciar. A delegada Rosa Carvalho, titular de uma Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) do Leblon, Zona Sul, afirma que o atendimento nas unidades especializadas é preparado para acolher as vítimas sem julgamentos. A delegacia de atendimento à mulher tem agentes com tratamento diferenciado e treinamento específico para isso, para não julgar, apenas registrar o que a vítima relata e permitir que tudo seja apurado durante a investigação. A mulher pode esperar qualquer coisa, menos pré-julgamento em sede policial. A Polícia Civil passa por um momento de renovação, com muitos profissionais novos e com olhar de acolhimento para qualquer vítima, principalmente nos casos de violência doméstica e sexual”, afirmou.
Segundo ela, a mulher pode procurar tanto a Deam quanto qualquer delegacia distrital. “A vítima pode esperar qualquer coisa, menos pré-julgamento em sede policial. Nosso papel é acolher, registrar e investigar.”
Denuncie
Denúncias podem ser feitas pelo telefone 190 ou por meio do registro de ocorrência on-line no site da Polícia Civil. Em casos em que a vítima mora com o agressor, a Justiça pode determinar o afastamento dele da residência ou o encaminhamento da mulher para um abrigo seguro. A vítima também pode recorrer ao número 180, da Central de Atendimento à Mulher. Especialistas reforçam que denunciar a violência é um passo fundamental para interromper o ciclo de abusos. Ainda assim, para muitas mulheres, o medo, a vergonha e o silêncio continuam sendo parte da rotina, inclusive em uma data que deveria representar liberdade, respeito e segurança.
Reportagem da estagiária Aretha Dossares, sob supervisão de Renata Onaindia
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