Matéria Salva!

Agora você pode ler esta notícia off-line

Matéria removida da seção links salvos

Ato pelo Dia Internacional da Mulher reúne multidão na orla de Copacabana

Com cartazes e faixas, as participantes cobram justiça pelas vítimas de feminicídio e reivindicam o direito de viver sem medo

Rio - Centenas de manifestantes ocuparam a orla de Copacabana, na Zona Sul, neste domingo (8), em celebração ao Dia Internacional da Mulher. O ato foi marcado por protesto contra o feminicídio, o estupro e outras formas de violência de gênero. Com cartazes e faixas, as participantes cobram justiça pelas vítimas e reivindicam o direito de viver sem medo.
A mobilização conta com a participação de mais de 80 entidades, entre sindicatos, movimentos populares, organizações feministas e mandatos parlamentares. Entre os presentes estavam a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco; a deputada estadual e presidente da Comissão da Mulher da Alerj, Renata Souza (PSOL); a deputada federal Benedita da Silva (PT); além da vereadora do Rio Mônica Benicio (PSOL), viúva de Marielle Franco.
Também participaram a secretária municipal de Meio Ambiente Tainá de Paula (PT) e Ivanir dos Santos, ativista dos direitos humanos e da liberdade religiosa.
Horas antes do início da manifestação, na altura do posto 3, integrantes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), sob o lema "Parem de nos matar", fincaram cruzes na areia denunciando o agravamento alarmante da violência contra a mulher.
"Nós queremos que os homens, os nossos filhos, netos e amigos entendam que a mulher é parceira de vida e quando o relacionamento chegar ao final, que um vá cada um para o seu lado e a vida que segue. Nós queremos estar vivas, só isso!. É a mulher que gera a vida, é a mulher que traz o ser humano ao mundo. Então é injusto, pelo simples fato de nós sermos mulheres, nós que geramos a vida, sermos mortas. Parem de nos matar", frisou Raimunda Leone, 59 anos, secretária-geral do CTB.
Parente de uma vítima de feminicídio e líder do sindicato dos comerciários, Adriana Atanasio, de 48 anos, participou do ato e lembrou da cunhada, assassinada há 22 anos após decidir terminar um relacionamento. Para ela, apesar do tempo, o cenário não mudou.
"Ela terminou o relacionamento por conta de uma traição. Depois disso, ele começou a persegui-la no local de trabalho e chegou a dizer que iria matá-la. Mas ninguém imaginou que fosse chegar a esse ponto. Um dia, ela recebeu uma mensagem para ir a um encontro, enviada por outra pessoa. Quando chegou ao local, testemunhas viram quando ela foi levada para um carro. Depois, para outro lugar e encontrada no IML com quatro tiros na face", explicou.
Adriana relatou que a família enfrentou 10 anos de processo, mas que no fim a Justiça não foi feita.
"Foi 10 anos em que a família ficou frente a frente com o suposto acusado. No fim, um juiz, um homem, disse que havia insuficiência de provas. Então, infelizmente, o caso não foi julgado e ele não foi preso. Anos depois ele faleceu, mas o fato é que não teve aquele apoio e a família ficou completamente destruída. Tudo aconteceu por conta de um "não" e de lá para cá a gente só vê piorar", lamentou.
O intuito de Adriana é provar que “não é o não” e que todas as mulheres têm direito de viver. "Até mesmo no meu local de trabalho já teve meninas que disseram não e foram enforcadas, espancadas e perseguidas. As pessoas precisam entender que em briga de marido e mulher tem que meter a colher, sim. Se não puder se meter, liga para o 180, para a polícia ou chama alguém. A maioria das mulheres fica acuada, porque tem medo e vergonha. O triste é que em 22 anos a situação só piorou, porque lá atrás não se falava de feminicídio, e hoje, infelizmente, nós somos mortas pior do que baratas", acrescentou.
Ato reuniu mulheres de diferentes localidades
O ato reuniu mulheres de vários bairros do Rio, a influenciadora Andressa Cacau, 43 anos, saiu de Guaratiba, na Zona Oeste, para lutar por menos violência.
"Eu desejo o fim da misoginia. Tudo isso que vem acontecendo é impactante, me assusta muito. E eu quero representar as mulheres estando aqui hoje. Eu vim de bem longe de Copacabana, mas eu vim com muito amor para lutar, para militar realmente, contra essa violência toda que tem acontecido. E a gente não pode se calar, não é justo, a gente precisa se unir e eu vim para ser mais um elo dessa corrente", disse.
A educadora Rejane Delaet, 60 anos, saiu de Jacarepaguá, na Zona Oeste, para participar do protesto.
"O que me traz aqui hoje é a luta pela defesa das mulheres, para que a gente possa estar juntas, unidas, em prol da segurança e para que a gente possa dar um basta no feminicídio, que é o que mais assusta e isso me afeta profundamente, não só no lugar de mulher, mas como no lugar de filha, de tia, de educadora, de amiga, o que a gente não quer para a gente, a gente não quer para ninguém. Espero que os homens se conscientizem e as mulheres também", afirmou.
A técnica de enfermagem Renata Andrade, 67 anos, esteve na manifestação com uma blusa feita pelo filho, com frases como: “Mexeu com uma mexeu com todas”; “Sua primeira casa foi uma mulher”, “Queremos mulheres vivas”, “Não é Não”.
"Eu espero mais a conscientização, principalmente dos homens, e um pouco mais de compreensão. Ainda mais agora que está acontecendo essas formas abruptas de feminicídio, de violência. Eu também já sofri violência física, verbal, psicológica, eu estou aqui para mais esse ato, pra poder estar junto com as mulheres lutando contra a violência contra a mulher", relatou.
A professora Patrícia Domingos, 65 anos, reforçou que o país ainda é muito machista. "Eu participo dessa manifestação há muitos anos pela necessidade óbvia que a gente ainda tem, no século XXI, de alguns princípios básicos, como respeito e direitos diversos. A gente vive numa sociedade muito machista. O Brasil é muito machista. O Rio de Janeiro é muito machista, tudo é peito e bunda. Então, essa perspectiva da mulher assim, a gostosa, ‘que vou pegar’, é muito ruim", acrescentou.

Moradora de Bonsucesso, na Zona Norte, Janaína Rangel, 46 anos, revelou falta de representatividade.
"Estar aqui hoje é viver o 8 de março com real significado, que é luta, porque é 2026 e a gente ainda está lutando como as mulheres de lá atrás, que trouxeram a gente até aqui. Já é uma evolução, mas estamos morrendo todo dia, não podemos dizer não. A gente pode votar, mas não pode dizer não. As opções que a gente tem pra votar, a maioria é masculina. Não temos representatividade, quem faz a lei não é uma mulher. Então, ela nunca vai beneficiar a gente do jeito que precisa", afirmou.
Coletivo feminista
Integrante do coletivo feministas Combativas, Bárbara Sinedino chegou a comentar sobre o caso de estupro contra uma adolescente de 17 anos em Copacabana e frisou que os agressores estão em qualquer lugar.
"Depois do ano que teve o maior índice de feminicídio na história do país, estar nas ruas no 8 de março, que é um dia mundial e internacional de luta pelas mulheres... Acho que o que representa é dizer que a gente não vai aceitar, que a gente não vai sair das ruas. Porque, infelizmente, os feminicidas, os violadores, não pretendem parar. Então a gente vai ter que pará-los. Estar na rua hoje é dizer que a gente vai ter que parar esses homens. Estamos bastante estarrecidas com o estupro coletivo que teve com a jovem estudante de 17 anos e, infelizmente, isso é uma coisa que acontece todos os dias em todos os lugares", lamentou.
Bárbara também acrescentou que estar nas ruas é um ato de resistir. "Só o fato da gente estar denunciando, estar levantando esses casos e, especialmente, estar na rua resistindo e dizendo que a gente não vai aceitar, é um caminho. Então estar aqui no dia de hoje é importante, mas não só hoje, é importante continuar nas ruas, porque um dia é pouco frente a tudo o que eles fazem todos os dias com tantas mulheres”, narrou.
O coletivo também está divulgando um canal de denúncias para vítimas de violência através do seguinte email: combativascoletivosfeminista@gmail.com
Brasil registrou recorde de feminicídio
Só em 2025, o Brasil registrou o recorde histórico de 1.518 feminicídios. Além disso, dados da Secretaria Municipal de Saúde do Rio apontam que, no mesmo ano, a cada 36 minutos, uma mulher foi vítima de violência no município. Apenas as unidades municipais de saúde registraram mais de 17.600 atendimentos a mulher vítimas de algum tipo de violência.

Você pode gostar
Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.

[an error occurred while processing the directive]